A fazenda do futuro pode ser uma fazenda de peixes?

Até 2050, estima-se que a população mundial cresça em pelo menos 2 bilhões de pessoas. E, entre muitos outros aspectos, isso significa que precisaremos de muito mais alimentos. Pensando nisso, as consequências desse boom na demanda por alimentos ao redor do planeta já estão sendo previstas. Atualmente, já é possível ver como o planeta vem reagindo às práticas do agronegócio e a preocupação para o futuro não está apenas em garantir que bilhões de pessoas sejam alimentadas, mas também que isso aconteça da forma mais sustentável possível. A criação de gado para a alimentação é uma enorme fonte de emissões de gases de efeito estufa; além disso, é preciso lembrar os danos críticos causados aos ecossistemas oceânicos, com a pesca.

Pelo menos 3 bilhões de pessoas em todo o mundo já têm o peixe como sua principal fonte de proteína, então simplesmente recolher os anzóis e proibir a pesca nos oceanos é algo completamente fora de possibilidade. O setor de aquicultura global já está avaliado em US$ 243,5 bilhões (o que equivale a mais de R$ 930 bilhões), e segue crescendo a uma taxa de cerca de 6% ao ano. E um novo relatório fez recomendações de como estruturar uma indústria pesqueira sustentável, e mostra que encontrar formas melhores de produzir peixes pode ser uma oportunidade lucrativa para os investidores.

Um relatório intitulado “Towards a Blue Revolution” (ou “Rumo à Revolução Azul”, em tradução livre), realizado pelas organizações The Nature Conservancy e Encourage Capital, recomenda três formas para criar uma indústria de piscicultura sustentável e bem-sucedida: tanques de peixes terrestres, criação de peixes grandes (como salmão) no mar, e operações agrícolas em rápida expansão para mariscos e algas marinhas.

“Uma das principais coisas que estamos fazendo como organização é tentar encontrar soluções para alimentar 9 bilhões de pessoas no planeta até 2050, da maneira mais sustentável possível”, diz Robert Jones, líder global do programa de aquicultura da The Nature Conservancy.

“Pelos nossos cálculos, serão necessários cerca de US$ 150 bilhões a US$ 300 bilhões em investimentos e capital apenas para atender a demanda por frutos do mar até 2030”, continua Jones. “Esta é uma grande oportunidade de mercado e uma grande oportunidade para a conservação, se pudermos direcionar o capital para os sistemas de produção mais sustentáveis”.

A produção de peixe em terra, tecnicamente chamada de “Aquicultura em Sistema de Recirculação” (RAS), envolve a criação de peixes em piscinas gigantes. Basicamente, os peixes são cultivados em tanques usando a tecnologia avançada de filtragem para filtrar os resíduos. O tanque, que é fechado, garante que nenhuma sujeira ou peixe escape em cursos de água próximos. A água pode ser tratada para permanecer “tão boa ou melhor” do que quando foi bombeada, e os tanques podem estar localizados mais perto dos principais mercados para cortar os custos de transporte. Isso é especialmente importante para países como, por exemplo, os EUA, onde 90% de seu atual suprimento de frutos do mar é importado.

Quando os peixes são criados no mar, isso normalmente é feito perto da costa, onde águas rasas e fluxos de água mais fracos podem fazer com que os resíduos contaminem as águas a causem doenças. Mudar para águas mais profundas com correntes mais fortes significa uma melhor difusão – algo que também poderia evitar doenças e parasitas.

“A nova ciência está mostrando que os impactos da qualidade da água além de 90 metros dessas fazendas são geralmente muito reduzidos, e estudos mais recentes estão mostrando que não há impacto mensurável na qualidade da água ao redor dessas fazendas quando elas estão longe da costa, o que é algo muito relevante”, diz Jones.

As fazendas de piscicultura offshore e Aquicultura em Sistema de Recirculação atualmente representam menos de 1% de toda a produção de peixe no mundo, mas o preço e a curva de aprendizado para ambos estão caindo. A despesa inicial de capital para a RAS, por exemplo, caiu 400% a mais com do que a tradicional pesca com rede.

Há também os bivalves e as algas marinhas. Para Jones, esses são os “super-heróis” da produção de alimentos. “Eles têm propriedades únicas que podem fornecer benefícios ecológicos para o meio ambiente”. ele concluí. As ostras filtram o nitrogênio dos cursos de água em que vivem; e as algas marinhas fazem o mesmo com o nitrogênio e o dióxido de carbono, ao mesmo tempo em que proporcionam uma espécie de amortecedor da linha costeira, ajudando a Natureza a lidar com mares agitados, proporcionando um habitat em que mais espécies vivam – e mais pessoas estão pensando em novas formas inteligentes de introduzir as algas na alimentação das pessoas.

Então, quando nos perguntamos se a fazenda do futuro pode ser uma fazenda de peixes, a melhor resposta possível é: Por que não?

__

Gostou do texto e quer fazer parte da nossa comunidade? Envie uma sugestão de pauta, um texto autoral ou críticas sobre o conteúdo para contato@inovasocial.com.br.

Créditos – Imagens: Shutterstock

Receba conteúdo exclusivo

Para não perder os próximos conteúdos do InovaSocial e receber materiais exclusivo em seu e-mail, assine agora a nossa newsletter.
Insira o seu e-mail