Superbactérias: Sem investimento, pesquisa brasileira caminha em ritmo lento

A bactéria Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase (KPC), também conhecida como superbactéria, foi identificada pela primeira vez em 2000, nos EUA. Desde então, as bactérias resistentes a antibióticos viraram realidade e um dos grandes temores da área da saúde. No texto “As previsões da Singularity University até 2038 – Parte II: O Futuro”, mostramos que, em 2032, “com o surgimento de novas doenças e superbactérias resistentes a todos os antibióticos conhecidos, aumentar o sistema imunológico pode ser uma necessidade para combater uma ameaça global.”

Ainda resgatando conteúdos que já apareceram no InovaSocial, em março de 2019, publicamos o texto “O futuro da medicina: ‘Você teria coragem de engolir um nanorobô?’, por Michel Levy”, onde é falado sobre a aplicação de nanorobôs como uma nova forma de combate à doenças. Por que estou falando isso tudo? Superbactérias e nanorobôs são o tema central do nosso texto abaixo.

Segundo a BBC News, o cientista brasileiro Mateus Borba Carsodo, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), de Campinas, conseguiu desenvolver, a partir do uso da nanotecnologia, um remédio “teleguiado” capaz de atacar e destruir superbactérias com uma microdosagem de antibiótico. Além de atacar a diretamente a bactéria, o estudo soluciona um dos principais problemas deste cenário. As superbactérias surgiram devido o uso excessivo de antibióticos. Como o antibiótico se espalha por todo o corpo, é necessária uma quantidade grande para tratar bactérias, fazendo com que, com o passar do tempo, ela se torne resistente ao remédio.

“A gente está desenvolvendo nanopartículas direcionáveis. A partir do momento em que a gente administra o medicamento no paciente, ele tem um tropismo pela região doente, como um GPS. A grande vantagem é tomar uma quantidade mil vezes menor de antibiótico ou antitumoral e ter um efeito igual ou ainda mais acentuado que um remédio comum porque todo o fármaco vai para o lugar onde desejamos. Hoje, não existe nenhum medicamento que faz isso no mundo”, afirmou o cientista, em entrevista para a BBC News.

O cenário Brasil: A falta de investimento na inovação

“O mecanismo funciona, mas precisa ser testado em organismos vivos. A pesquisa já está madura o bastante para isso, mas todos esses testes são necessários para garantir que a droga fique estável e possa ser comercializada em larga escala, mundialmente”, afirmou Cardoso à BBC News Brasil.

É aí que entra o problema. Atualmente existem outras quatro pesquisas em andamento (uma americana, uma chinesa e duas alemãs). Todas elas usam abordagens diferentes, mas a brasileira é a única que usa nanotecnologia teleguiada e, até o momento, não recebeu nenhuma proposta de financiamento para que possa avançar. 

Segundo o presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, “na melhor das hipóteses, uma pesquisa sobre medicamentos demora de 10 a 12 anos e tem um custo de até US$ 1 bilhão (R$ 4,15 bilhões) para lançá-lo. As empresas brasileiras fazem pesquisas, mas escolhem os ramos com retorno mais garantido. Em outros países, é mais fácil porque o governo também faz parceria com os pesquisadores e ainda há empresas como a Bayer, que tem um lucro que vale por toda a produção brasileira”

Segundo a BBC News, “o presidente da Sindusfarma também disse que no Brasil não há uma tradição dos centros de pesquisa e universidades ‘venderem’ seus estudos em busca de financiamento, e vice-versa. Na visão dele, pesquisadores e indústrias precisam se comunicar mais, para possibilitar mais parcerias.” No caso da pesquisa contra superbactérias, sem investimento, os testes seguiram, mas em um ritmo bem mais lento.

Aqui no InovaSocial, já havíamos comentado o formato [de financiamento de pesquisas e o relacionamento com universidades]. No podcast “Podcast #30: Super cola ecológica e ciência no Brasil com Naima Orra”, a química brasileira comentou sobre os desafios de viabilizar algumas inovações (ouça o podcast abaixo).

Apesar do Brasil seguir sem grandes mudanças no ranking do Índice Global de Inovação (em 2019, o país caiu duas posições e ficou em 66º lugar, de 129 países avaliados), por aqui ainda é muito comum ver a inovação atrelada ao mercado de tecnologia. E o cenário é bem diferente. Segundo Paul Romer, um dos vencedores do Prêmio Nobel de Economia do ano passado, “sem pesquisa, sem ciência, sem tecnologia, sem inovação, qualquer nação está condenada, no longo prazo, a padecer na estagnação. Não existe aumento de produtividade, não existe aumento de competitividade, não existe melhoria dos meios de produção, não existe aumento de qualidade de vida da população. [Sem inovação] A nação para no tempo.”

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