“O movimento climático não precisa de mais prêmios”, segundo Greta Thunberg

Muito mais que uma ativista climática, Greta Thunberg tornou-se a voz de nova geração. Uma geração que questiona os formatos tradicionais, sejam eles no âmbito da política ou do ativismo climático. Isso também faz com que as ações da jovem fujam do roteiro, dividindo as opiniões sobre a ativista.

A mais recente atitude aconteceu no fim de outubro deste ano. Homenageada em uma cerimônia em Estocolmo, realizada pelo Conselho Nórdico, um órgão regional de cooperação interparlamentar, Greta ganhou o prêmio anual de meio ambiente da organização. Até aqui, nenhuma novidade. Mas depois que o prêmio foi anunciado, uma representante de Thunberg disse à platéia que ela não aceitaria o prêmio e os 350.000 coroas dinamarquesas (cerca de US$ 52 mil dólares).

Pelo Instagram, Greta afirmou que “o movimento climático não precisa de mais prêmios. O que precisamos é que nossos políticos e as pessoas no poder comecem a ouvir a ciência. Os países nórdicos têm uma grande reputação em todo o mundo quando se trata de questões climáticas e ambientais (…) Mas quando se trata de nossas emissões reais e de nossas pegadas ecológicas [quantidade de terra e água que seria necessária para sustentar as gerações atuais] per capita – se incluirmos nosso consumo, nossas importações, além de aviação e transporte marítimo -, é uma história totalmente diferente.”

Greta continua a publicação criticando a exploração de petróleo (principalmente a exploração do campo de Johan Sverdrup) e gás natural na Suécia e a forma como os países nórdicos têm “liderado o caminho para atingir as metas do Acordo de Paris.”

Ver essa foto no Instagram

I have received the Nordic Council’s environmental award 2019. I have decided to decline this prize. Here’s why: “I am currently traveling through California and therefore not able to be present with you today. I want to thank the Nordic Council for this award. It is a huge honour. But the climate movement does not need any more awards. What we need is for our politicians and the people in power start to listen to the current, best available science. The Nordic countries have a great reputation around the world when it comes to climate and environmental issues. There is no lack of bragging about this. There is no lack of beautiful words. But when it comes to our actual emissions and our ecological footprints per capita – if we include our consumption, our imports as well as aviation and shipping – then it’s a whole other story. In Sweden we live as if we had about 4 planets according to WWF and Global Footprint Network. And roughly the same goes for the entire Nordic region. In Norway for instance, the government recently gave a record number of permits to look for new oil and gas. The newly opened oil and natural gas-field, ”Johan Sverdrup” is expected to produce oil and natural gas for 50 years; oil and gas that would generate global CO2 emissions of 1,3 billion tonnes. The gap between what the science says is needed to limit the increase of global temperature rise to below 1,5 or even 2 degrees – and politics that run the Nordic countries is gigantic. And there are still no signs whatsoever of the changes required. The Paris Agreement, which all of the Nordic countries have signed, is based on the aspect of equity, which means that richer countries must lead the way. We belong to the countries that have the possibility to do the most. And yet our countries still basically do nothing. So until you start to act in accordance with what the science says is needed to limit the global temperature rise below 1,5 degrees or even 2 degrees celsius, I – and Fridays For Future in Sweden – choose not to accept the Nordic Councils environmental award nor the prize money of 500 000 Swedish kronor. Best wishes Greta Thunberg”

Uma publicação compartilhada por Greta Thunberg (@gretathunberg) em

O movimento climático não precisa de mais prêmios… Será?

O discurso de Greta não está errado. Alguns prêmios funcionam mais como uma forma de política, do que uma forma de incentivar ações. É comum, principalmente no cenário das políticas públicas, afirmar algo por ideologia, mas seguir na contramão para equilibrar as contas. Johan Sverdrup é o terceiro maior campo de petróleo de Noruega e produz mais de 200 mil barris por dia. Até 2022, o objetivo é chegar aos 660 mil barris por dia.

Segundo a estatal norueguesa, Equinor, o campo de Johan Sverdrup produz apenas 0.67kg de CO2 para cada barril de petróleo produzido. E, de acordo com a empresa, isso representa menos de 4% dos 18kg de CO2 da média mundial. É “pouco” para a indústria, mas ainda são 475 toneladas de CO2 por dia (caso atinja a meta de 2022). Para efeito de comparação, se usarmos como base a média per capita de emissão de CO2 no Brasil (2.59 ton – Banco Mundial, 2014), o campo de Johan Sverdrup emitirá por dia, a mesma quantidade de CO2 que Nova Friburgo (RJ) ou Santa Bárbara do Oeste (SP) emite por ano.

Ou seja, Greta está certa em criticar o atual cenário. No entanto, o que sobra de sensatez nas afirmações da ativista, falta em experiência. Afirmar que o movimento climático não precisa de mais prêmios é um pouco ingênuo. Prêmios, quando bem desenvolvidos, servem como incentivadores e divulgadores de projetos. Dizer que eles não são necessários, talvez seja válido para uma ativista que consegue reverberar suas afirmações pelo mundo, mas não para aqueles pequenos projetos ou ativistas que atuam em micro cenários. Para este público, não só o prêmio em dinheiro, como a divulgação, também serve como atestado de validade de suas iniciativas.

Receba conteúdo exclusivo

Para não perder os próximos conteúdos do InovaSocial e receber materiais exclusivo em seu e-mail, assine agora a nossa newsletter.
Insira o seu e-mail