Espalhar microrganismos em Marte pode ser uma alternativa para a colonização

Um artigo publicado em 22 de agosto de 2019, na revista FEMS Microbiology Ecology, propõe uma mudança radical na exploração espacial e na política de proteção planetária, especialmente nas questões relacionadas aos microrganismos no espaço. De acordo com o texto, assinado por três pesquisadores da Nova Southeastern University (NSU), os primeiros colonos de Marte não deveriam ser pessoas, mas micróbios germinativos.

Os pesquisadores afirmam que colonos primários de Marte deveriam ser bactérias, vírus e fungos que sustentam a vida na Terra há milhões de anos. Jose Lopez, professor da NSU e um dos autores do artigo, propõe que a colonização planetária deva começar com um plano de estudo de micróbios que poderiam sustentar a vida em ambientes extraterrestres. Lopez afirma que “a vida como conhecemos não pode existir sem microrganismos benéficos (…) Para sobreviver em planetas estéreis, teremos que levar os micróbios benéficos conosco.”

Se levarmos em conta que os habitantes primários da Terra foram, durante milhares de anos, microrganismos unicelulares e eles cumpriram bem o seu papel, a ideia de colonizar Marte desta forma não parece ser uma má ideia. Entretanto, isso vai totalmente na contramão das diretrizes de contaminação que a NASA e todos os programas espaciais aderiram há décadas.

Políticas que existem por um bom motivo. Quando se trata de algo enviado para o espaço, tudo é cuidadosamente esterilizado para evitar que haja contaminação de um ambiente que está sendo estudado. É como a cena de um crime. Se houver alguma interferência externa, alguma contaminação do ambiente, os resultados podem ser inconclusivos ou nos levar para o “culpado” errado.

Além disso, no caso de Marte, os microrganismos poderiam sofrer mutações ao serem expostos a radiação excessiva do planeta, criando um ambiente hostil e inabitável. Ou seja, a magia poderia se voltar contra o feiticeiro e deixaríamos o planeta ainda mais hostil para os colonos humanos.

Para evitar que isso ocorra, os pesquisadores propõem que a introdução microbiana não deva ser acidental, mas controlada e inevitável. Além disso, determinar os micróbios mais úteis para o espaço requer mais pesquisa na Terra (ainda estamos longe de sair espalhando microrganismos pela atmosfera do Planeta Vermelho de forma ordenada). Na publicação, os pesquisadores sugerem um regime de pesquisa chamado “Proactive Inoculation Plan” (PIP – “Protocolo de Inoculação Proativos”, em tradução livre), que engloba a triagem de potenciais candidatos microbianos resistentes, genes tóxicos ou letais e a descrição de mecanismos de simbiose.

“A vida na Terra começou com microrganismos relativamente simples, com capacidade de adaptação e evolução para condições extremas, que definiram os habitats da Terra no passado”, afirma Lopez. “Há mais de dois bilhões de anos, as cianobactérias, por exemplo, forneceram a maior parte do oxigênio que agora respiramos. Para encontrar os melhores candidatos microbianos, teremos que conversar com muitos microbiologistas e realizar pesquisas aqui, em nosso planeta, para encontrar as espécies microbianas ideais.”

O artigo afirma que “para futuras expedições espaciais, um dia podemos permitir que a seleção natural atue sobre micróbios que viajam de forma fortuita ou deliberada nos foguetes e sondas. Como fizeram durante a evolução da Terra, um micróbio sortudo pode encontrar uma maneira de se adaptar aos ambientes extremos e, em seguida, pavimentar o caminho para futuros colonos.”

Mas para que isso aconteça, precisamos focar em dois pontos essenciais. Primeiro, no nosso objetivo final em relação a Marte. Queremos mesmo colonizar o Planeta Vermelho ou só estudá-lo? Se a nossa missão é colonizar e terraformar a região extraterrestre, não devemos ter medo de introduzir microrganismos úteis e que podem ajudar na formação do fundamento da vida biológica. Para isso, chegamos ao segundo ponto. Precisamos mudar as políticas de colonização espacial e de contaminação microbiológica controlada no espaço.

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Créditos: Imagem Destaque – Vadim Sadovski/Shutterstock

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