Os alimentos plant-based que imitam carne são feitos para quem?

Eu amo um hambúrguer. É a minha comfort food favorita. Estou triste? Estou feliz? Estou com preguiça de cozinhar? Hambúrguer é sempre a resposta. Por outro lado, também sei que o consumo de carne gera graves impactos ambientais no planeta.

Com a mais nova tendência de alimentos produzidos a base de vegetais que imitam produtos de origem animal, as discussões sobre o tema vão se escalonando a todo momento. Primeiro, surgem as pessoas que acham a ideia incrível; depois, surgem os que preferem questionar: “De que adianta ser vegetariano e consumir produtos que imitam carne?”

Todo esse cenário faz com que eu me pergunte: Os alimentos plant-based que imitam carne são feitos para quem?

Talvez a primeira resposta que venha à sua mente seja: os vegetarianos/veganos ou, mais especificamente, os “novos” vegetarianos/veganos, que estão estão em fase de transição. Mas a verdade é que a resposta para essa pergunta é simples (e, ao mesmo tempo, nos traz um grande desafio): os alimentos plant-based que imitam carne são feitos para todo mundo. Desde aquela pessoa que não consome carne há anos, mas principalmente para as pessoas que ainda consomem carne e que, talvez, nem tenham pensado no vegetarianismo ou no veganismo como uma opção hábito de consumo.

Primeiro, porque estamos falando de um tipo de alimento que não gera qualquer sofrimento animal. Segundo, pela questão ambiental.

Eu acredito que a esmagadora maioria das pessoas que comem carne hoje não teria esse hábito se, para isso, elas tivessem que matar o animal a ser consumido. Falo isso porque eu sou uma dessas pessoas. Se toda vez que eu quisesse comer um hambúrguer, tivesse que matar um animal com as minhas próprias mãos, eu nunca mais comeria hambúrguer. Claro, falo isso do alto da minha pilha de privilégios de uma Millennial que cresceu na cidade grande. A realidade da minha avó materna, por exemplo, que cresceu na fazenda, era completamente diferente. Lá, se você não matava o frango, não tinha almoço. Já eu, passei a vida toda consumindo carne sem exatamente ligar esse alimento aos animais e confesso que esse é o meu maior desafio dentro de todo esse cenário: Como se desfazer de um hábito que é “praticado” há quase 30 anos? Como virar essa chavinha? Talvez os alimentos plant-based possam ser a solução.

Além da preocupação com o bem-estar animal, também há a questão ambiental. A indústria de carne convencional gera bilhões de animais e fatura mais de US$ 1 trilhão por ano. No entanto, enormes impactos ambientais causados por essa indústria foram evidenciados em estudos científicos recentes, desde as emissões que impulsionam a mudança climática até os habitats silvestres destruídos para a agricultura, além da poluição dos rios e oceanos.

De acordo com um relatório da AT Kearney, a maior parte da carne que as pessoas comerão em 2040 não virá de animais abatidos. Segundo o relatório, 60% dessa carne serão cultivados em laboratórios ou substituídos por produtos à base de vegetais, como aparência e sabor de carne. Enquanto novas marcas como a Beyond Meat e a Impossible Foods estão ganhando seus lugares nas prateleiras nos supermercados nos EUA, também é possível ver marcas tradicionais buscando seu lugar ao sol neste novo mercado. No início de agosto, o Burger King começou a vender o Impossible Whoopper nas mais de 7 mil lojas da rede espalhadas pelos Estados Unidos. Enquanto isso, o frango frito vegetal do KFC, desenvolvido em parceria com a Beyond Meat, esgotou em menos de cinco horas – durante um teste que aconteceu em Atlanta (Geórgia, EUA).

E, claro, não podemos nos esquecer de mencionar que outras empresas estão trabalhando no cultivo de carne em cultura de células, para produzir carne de verdade sem a necessidade de criar e matar animais. Embora nenhum desses produtos tenha atingido os consumidores, a AT Kearney prevê que a carne cultivada em laboratório dominará o mercado, pois o sabor e a sensação da carne convencional são os que chegam mais perto da realidade, quando comparada às alternativas plant-based.

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Aqui no Brasil, nossa experiência com alimentos à base de vegetais que imitam carne pode ser vivenciada com o Futuro Burger. Ele é vendido congelado nos supermercados, mas também faz parte do cardápio da Lanchonete da Cidade, em São Paulo – o LC Futuro é um x-salada 100% vegetal, que (além do hambúrguer plant-based, claro) tem em sua lista de ingredientes queijo e maionese veganos, alface e tomate orgânicos.

Desenvolvido pela Fazenda Futuro, o Futuro Burger teve seu lançamento em maio de 2019 e, desde então, minhas idas ao supermercado se resumiam em procurar o já famoso hambúrguer plant-based. E ele sempre estava esgotado.

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Apesar de me sentir levemente frustrada por não conseguir matar minha curiosidade, também fiquei muito feliz ao ver que a procura por um produto como esse era alta. Há anos, falamos aqui no InovaSocial sobre tecnologia aplicada ao alimentos, então, ver algo inovador chegar ao mercado esgotando as prateleiras me mostra que estamos no caminho certo.

Dois meses depois, a busca se encerrou. E minha experiência foi, no mínimo curiosa – além de muito agradável.

Olhei, incrédula, para aquele hambúrguer já descongelado. A imagem e a textura transmitiam uma sensação de “não tem como isso dar certo”, mas segui com o experimento.

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Na primeira tentativa, ele quase queimou e fez fumaça na casa toda. “Ok, já aprendi que não é um hambúrguer de carne de verdade, vamos abaixar o fogo.” Na segunda tentativa, deu tudo certo. Muito certo!

Se é um hambúrguer com sabor idêntico ao de carne? Na minha opinião, não é (mas ainda assim é saboroso). O que me surpreendeu foi a textura: é muito parecida (e essa é uma sensação muito divertida no começo!).

Ele é, sem dúvidas, o melhor hambúrguer de origem vegetal que já comi e é mais saboroso (e saudável) que o hambúrguer de muitas redes de fast food. Com os acompanhamentos certos, a experiência pode ser muito saborosa.

É importante sempre ressaltar que esse mercado é muito novo. Nós estamos vendo uma nova tendência tomar forma em tempo real. Apesar de sabermos que hambúrgueres vegetais existem há muitos anos, essa é a primeira vez que estamos vendo marcas focadas em produzir alimentos à base de vegetais que chegam o mais próximo possível do sabor de alimentos derivados de animais. O Futuro Burger pode ainda não ser uma opção exatamente idêntica a um hambúrguer “original”, mas ele chega muito (muito!) perto. E também é importante lembrar que estamos falando de um produto que foi lançado há pouco mais de dois meses. A partir disso, virão outras marcas, outras opções de alimentos, novas receitas, todo um mercado irá se formar.

As pesquisas já dizem que a maior parte da carne que as pessoas comerão em 2040 não virá de animais abatidos. E o que nós estamos vendo hoje é a inovação moldando o futuro diante dos nossos olhos.  Estamos apenas no começo. Como será daqui a um ano? Dois? Dez?

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Imagens: Andressa Jordano / InovaSocial

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