5AM Club: O que aconteceu quando me propus a acordar às 5 da manhã por uma semana

Eu percebi que estava trabalhando demais no dia em que minha terapeuta pediu para que eu falasse sobre mim sem falar sobre meu trabalho. E eu travei. Era difícil pensar em minha vida sem pensar no meu trabalho, porque o que eu fazia durante a maior parte dos meus dias era trabalhar. Percebi que meu tempo de lazer (que já era bem pequeno) dificilmente envolvia algo longe das telas e, aos poucos, minha mente foi ficando mais e mais “nebulosa”. Quanto mais eu trabalhava, mais dificuldade tinha em manter o foco. Quanto mais tempo eu passava sem foco, a minha jornada de trabalho ia se estendendo; afinal, as tarefas ainda precisavam ser concluídas. Quanto maior a minha jornada de trabalho, menos tempo de lazer. Enfim, me vi em uma bola de neve que rolava morro abaixo, sem previsão de parada.

Como faço home office, raramente tenho um horário definido para começar a trabalhar. O problema é que isso também significa não ter horário para terminar de trabalhar. Então, já me vi finalizando tarefas à 1 da manhã, quando tudo o que eu queria era estar aconchegada no sofá assistindo a mais um episódio de Friends pela milésima vez ou simplesmente dormindo. Não é preciso ser um especialista para entender que essa rotina não é nada saudável. Meus familiares me alertaram sobre isso, meu marido me alertou sobre isso, e eu simplesmente não sabia como resolver a situação.

Até o dia em que acordei às 5 da manhã e, ao invés de me ajeitar na cama e dormir por mais algumas horas, resolvi me levantar e começar meu dia.

Já havia ouvido muitas pessoas falando sobre o 5AM Club e sempre fiquei curiosa para testar como era acordar muito mais cedo do que o costume. Esse conceito foi “criado” por Robin Sharma, que é escritor e palestrante especializado em liderança, mas foi disseminado por uma série de pessoas mundo afora, como Hal Elrod (escritor do best-seller “O Milagre da Manhã”) e Jeff Sanders (apresentador do podcast “5AM Miracle” e escritor do livro homônimo).

“As pessoas acham que não têm mais tempo”, explica Jeff Sanders, “mas há tempo”.

A partir do dia em que pulei da cama às 5 da manhã, decidi passar uma semana vivendo essa experiência e hoje trago aqui um breve relato de como foram esses dias e as questões que surgiram em minha cabeça sobre o assunto.

Privilégios? Ah, você tem privilégios?

Antes de falarmos sobre minha experiência, é importante falar sobre privilégios. Milhões de pessoas acordam todos os dias até mesmo antes desse horário e o nome disso não é “5AM Club“, é “acordo-às-quatro-e-meia-da-manhã-porque-preciso-pegar-o-ônibus-para-chegar-cedo-no-trabalho”. Quando eu estava ali, tomando um café tranquilamente enquanto via o sol nascer da janela do meu apartamento, dezenas de ônibus passaram na grande avenida que fica a alguns metros do meu prédio. Todos lotados de pessoas que acordaram muito antes de mim.

Antecipando minhas conclusões, acordar bem cedo todos os dias fez muito bem para minha produtividade e meu bem estar, mas é importante lembrar que o que pode ser um grande desafio ou uma grande realização para algumas pessoas (como eu), é apenas algo comum na rotina de outras milhões de pessoas que acordam cedo simplesmente porque precisam.

Não, você não é a pior pessoa do mundo por isso. E isso também não significa que só porque você não precisa acordar às 5 da manhã todos os dias você não precise trabalhar duro para pagar suas contas no fim do mês. Cada pessoa tem seus desafios e seus próprios leões para matar todos o dias. Mas seria irresponsabilidade de minha parte falar sobre essa experiência sem ressaltar uma questão que é tão comum em nossa sociedade.

Acordar às 5 da manhã por opção é um privilégio e tanto. Tenha isso em mente e siga em frente.

Sobre acordar antes do Sol e desacelerar

8h30 sempre foi o horário ideal para mim: cedo o suficiente para começar a trabalhar, tarde o suficiente para que eu não precisasse dormir antes da meia-noite no dia anterior. Foram raras as vezes em que acordei antes do Sol, mas todas as ocasiões envolviam algo como uma viagem, uma corrida de rua com largada marcada para as 7h ou problemas para dormir. No primeiro dia, achei tudo muito engraçado. Ver o Sol nascer em um dia comum, sem ser porque passei a noite acordada com insônia, foi algo energizante.

Fiz tudo com calma. Tomei um café da manhã sem pressa, meditei, acompanhei as primeiras notícias do dia, até me exercitei (em uma academia praticamente vazia!). Acordando às 8h30, eu sentia que estava começando uma corrida atrasada. Acordando às 5h, a sensação era de que eu tinha tempo para tudo. Às 8h, já estava pronta para trabalhar, muito disposta e com todo o dia já planejado.

Ao longo do dia, senti que meu cérebro trabalhou muito melhor, aquela névoa parecia ter sumido e eu era uma máquina de produtividade. Antes do Sol se pôr, minhas tarefas de trabalho já estavam concluídas e eu ainda tinha algumas boas horas para me dar momentos reais de lazer.

Cozinhei, li um livro que estava parado na mesa de cabeceira há tempos, assisti a alguns episódios atrasados de Grey’s Anatomy. Parecia que um gênio da lâmpada havia me dado horas a mais no dia, mas a verdade é que aquele dia que já havia começado muito produtivo tinha as mesmas 24h que todos os outros.

Calm down, Beyoncé!

Apesar de todo meu otimismo inicial, preciso confessar que sair da cama tão cedo no segundo dia não foi algo fácil e confesso que os “5 minutinhos” se transformaram em 30! Um dos culpados foi o frio que fez em São Paulo naquela semana (quem é doido o suficiente para largar uma cama quentinha às 5h por livre e espontânea vontade?), e o outro culpado foi a fato de eu ter me sentido a Mulher Maravilha na noite anterior. Fui dormir no mesmo horário que costumava dormir quando acordava às 8h30, foram quase 20 horas acordada. E o corpo cobrou.

Foi quando senti a primeira desvantagem dessa experiência: acordar cedo demais significa também ir dormir cedo, e isso pode até funcionar caso você more sozinho ou tenha uma rotina mais independente em casa, mas talvez não seja a melhor coisa a se fazer quando você compartilha sua rotina com outras pessoas, como seus filhos ou seu cônjuge. Então, já no segundo dia, percebi que nada havia mudado: não é possível ter tudo nessa vida, não dá para acordar às 5h e ir dormir à 1h, é preciso definir prioridades e se encontrar no meio disso.

Acordar antes do Sol é muito bom, mas não é tudo

No terceiro dia, a sensação era de que eu não tinha nada para fazer. Todas as tarefas do meu dia precisavam ser alinhadas em conjunto com pessoas que não faziam parte do 5AM Club. Tomei meu café, fiz minha meditação e esperei. Usei o tempo para pensar se aquilo tudo fazia sentido. E percebi que não, não fazia sentido acordar cedo para simplesmente esperar ou para ficar caçando coisas para preencher o tempo, não fazia sentido ir dormir cedo demais e perder o convívio com pessoas queridas (apesar de ter bastante tempo livre disponível nesses dias). E então, vi o Sol nascer pela última vez naquela semana; e decidi que, apesar da sensação boa e energizante que aquele momento me proporcionava, era preciso encontrar um meio-termo dentro daquilo tudo.

Acordei às 6h30 no quarto dia e é o que venho fazendo desde então — mesmo quando chegou ao fim a semana em que me propus viver essa experiência. Eu não acordo “antes de todo mundo”, nem do Sol, e não tenho taaanto tempo livre logo pela manhã. Mas ainda assim são duas horas antes do que estava acostumada a fazer há anos, duas horas que ainda fazem com que eu siga muito produtiva ao longo do dia, que ainda me permitem algumas pausas para descansar a cabeça e me dão tempo de qualidade com as pessoas importantes com as quais eu divido meus dia (inclusive eu mesma!).

Acordar antes do Sol é muito bom, mas eu preferi guardar isso para outros dias (e amanhã não vai ser um desses dias, nem depois).

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Créditos – Imagem Destaque: Shutterstock

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