Subemprego e desemprego, os dois lados da moeda dos aplicativos de serviços

Eles são jovens, chegam a trabalhar mais de 10 horas seguidas e ganham pouco. O cenário dos entregadores que prestam serviço para empresas de delivery por aplicativos ainda está no início, mas muitos já são adeptos, pois viram na solução uma forma de encontrar um trabalho e sair da faixa dos mais de 12 milhões de desempregados (dados segundo o IBGE, em agosto de 2019). Essa dura realidade ganhou destaque nas redes sociais quando, no começo de setembro deste ano, o jornalista Victor Calcagno decidiu trabalhar durante uma semana como entregador.

No texto “Uma semana como entregador de app: Repórter relata rotina de serviço que se multiplica no país”, da revista Época, Calcagno apresentou uma realidade que muitos desconhecem (ou preferem não se lembrar que exista); a do subemprego. O texto afirma que “uma pesquisa divulgada em julho pela Aliança Bike — associação que reúne fabricantes, distribuidores, lojistas de bicicletas e entidades sociais —, com 270 deles, em São Paulo, aponta que a maioria [dos entregadores] tem até 27 anos (75%), é negra (71%), do sexo masculino (99%) e tem ensino médio completo (53%). A renda média é de R$ 992 mensais, com 75% dos ciclistas disponíveis para entregas até 12 horas seguidas. O principal motivo que os leva a encarar esse trabalho é o desemprego (59%).”

O cenário não é muito diferente dos motoristas de aplicativos de transporte particular. Por não dirigir, sou um constante usuário destes aplicativos, e sempre gosto de ouvir as histórias. Entender quem está ao volante. E as realidades são inúmeras. Do engenheiro pós-graduado e recém desempregado, ao rapaz que largou a escola no ensino médio e trabalhava há 26 horas seguidas, para poder compensar o fim de semana que aproveitaria com a filha recém-nascida. De diferente, os motoristas só possuem o número de rodas. Ao invés das 2 da moto ou da bicicleta, dirigem 4. Mas a realidade é a mesma: Subemprego com horas de trabalho, valores baixos, estresse pelas notas de avaliação (“doutor, não deixa de me avaliar” é uma frase recorrente) e o vislumbre de uma oportunidade; de compensar o desemprego com uma alternativa de fácil acesso. É o trabalho a um aplicativo de distância.

Subemprego vs. Desemprego: Os dois lados de uma mesma moeda

Segundo Calagno, “As três maiores empresas do ramo de entregas por aplicativo no país — iFood, Uber Eats e Rappi — responderam a questões que fiz baseadas nas demandas mais frequentes que ouvi dos entregadores. Sobre uma das preocupações mais comuns entre eles, a de se acidentar, a Uber Eats disse que oferece um seguro gratuito para acidentes ocorridos entre as entregas no valor de até R$ 100 mil, reembolso de até R$ 15 mil em despesas médicas e um cartão pré-pago que dá descontos em atendimentos hospitalares.”

Calagno completa, “a Rappi afirmou que possui um botão de emergência dentro do app, pelo qual é possível acionar o suporte telefônico da empresa ou as autoridades competentes, além de incentivar os entregadores “a observar as regras de trânsito e usar materiais de proteção pessoal”. O iFood também afirmou disponibilizar um botão do mesmo tipo no aplicativo, além de realizar ações educativas para a segurança dos parceiros.”

Já sobre as críticas de que não é possível manter necessidades financeiras básicas com o rendimento proporcionado pelos aplicativos, mesmo trabalhando mais de dez horas por dia, Calagno afirma que “as três empresas ressaltaram que não existe carga horária no serviço, que os entregadores estão livres para desligá-lo assim que acharem mais apropriado e que o preço das corridas vem de um montante fixo por entrega, acrescido de critérios como distância, veículo e demanda — o que pode variar com as condições climáticas.”

Legalmente eles não estão errados. Os aplicativos são apenas facilitadores e não possuem (apesar da discussão em torno do tema seguir em várias partes do mundo) qualquer ligação trabalhista com os entregadores e motoristas. Mas qual o impacto social deles? Qual o impacto da inovação que eles construíram?

De um lado, o subemprego é horrível. Ninguém (ou a grande maioria) não gostaria de estar trabalhando daquela forma. Some isso, dados de um trânsito mortal. Uma pesquisa exclusiva realizada com base em dados das secretarias de segurança e do Relatório Anual da Seguradora Líder, mostra que a violência no trânsito mata mais que crimes violentos. Segundo o estudo, “São Paulo, Minas Gerais e Paraná lideram o ranking, nesta ordem, seguidos por Santa Catarina, Mato Grosso, Piauí, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Rondônia. Os números se referem a vítimas de acidentes de trânsito indenizadas pelo Seguro DPVAT em 2018 – um universo de aproximadamente 38.000 pessoas.”

Então, por quê ser motorista ou entregador de aplicativo? As respostas são diversas, mas o ponto central parece surgir quando o assunto desemprego entra em pauta. Como pudemos ver no texto, os aplicativos são a solução para aqueles que estão sem oportunidade no mercado de trabalho. Seja por falta de formação, pela idade ou por preconceito, acabam se submetendo a qualquer alternativa.

Os aplicativos não são os bichos-papões. Pelo contrário, a situação poderia ser ainda pior. Imagine o seguinte cenário. Jovem, negro e com ensino médio completo, Beto é pai de uma recém-nascida e de um menino de 8 anos. A esposa trabalha como secretária em um consultório médico e Beto não consegue emprego. É a crise, dizem as pessoas. Você acha que Beto vai ficar de braços cruzados, esperando algo aparecer ou vai garantir R$ 992 por mês rodando de bicicleta pela cidade? A história de Beto é fictícia, mas representa bem a realidade destes profissionais.

A realidade do famoso “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Não é o melhor dos mundos, mas em um país com mais de 12 milhões de desempregados, a concorrência pela vaga CLT é grande e criar o próprio negócio requer, além de uma boa ideia, investimento inicial e conhecimento. Já o cadastro do aplicativo está logo ali. Basta preencher a ficha, ser aprovado (na maioria das vezes, sem grandes dificuldades) e sair trabalhando.

Ao mesmo tempo em que os aplicativos geram um subemprego que, consequentemente, gera uma marginalização profissional, eles também são uma forma de gerar acesso ao trabalho. E quando o subemprego se torna a melhor alternativa, o problema não está nos aplicativos, mas em todo o resto.

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Créditos: Imagem Destaque – Myriam B/Shutterstock

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