Pandemia: O novo coronavírus, fake news e a Gripe Espanhola na Netflix

Com o surgimento do novo coronavírus, o mundo vive a ansiedade de uma nova pandemia (e uma crise econômica global). Os números das primeiras semanas do surto de 2019-nCov (nome temporário dado pela OMS) já superam o mesmo período da epidemia de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2003. Nos primeiros 18 dias, o SARS infectou cerca de 1.800 pessoas, enquanto o vírus de Wuhan já contabiliza quase 5 mil casos. Segundo um estudo feito pela Dra. Natsuko Imai e seus colegas de equipe do Imperial College London, em Londres, com base em dados colhidos até o dia 18 de janeiro, cada pessoa infectada pelo novo vírus pode transmitir para 1.5 a 3.5 pessoas.

Ainda segundo o estudo, existem incertezas sobre este índice, pois não se sabe se “os casos com sintomas relativamente leves são capazes de transmitir o vírus com eficiência.” Ou seja, a taxa de transmissão pode ser ainda maior, já que, nos últimos dias, foi descoberto que o 2019-nCov se propaga mesmo quando não há a presença de sintomas. A boa notícia é que, ao mesmo tempo que o vírus se propaga, cientistas do mundo todo estão acompanhando cada passo do novo coronavírus. É bem provável que, enquanto você lê este texto, muita coisa já tenha acontecido (e esperamos que sejam boas notícias).

O vírus como uma tendência: Olhando o passado, para entender o futuro

O vírus da gripe (e uma pandemia) funciona como uma análise de tendência, para você entender/prever o futuro, precisa conhecer o passado. A Gripe Espanhola, por exemplo, apesar de ter ocorrido em 1918, possui grandes semelhanças com a H5N1, também conhecida como Gripe Aviária. Além disso, o vírus muda constantemente, por isso você acaba tomando vacina contra gripe todos os anos. Com o conhecimento das variações anteriores, conseguimos nos adaptar (por meio de vacinas) com as futuras “versões” do vírus. Abaixo você confere a atualização quase em tempo real do novo coronavírus, em uma plataforma criada pela Universidade Johns Hopkins.



A Gripe Espanhola e os fatores que aumentaram a letalidade do vírus

A Gripe Espanhola não surgiu na Espanha. Essa curiosidade está totalmente conectada com o fator comunicação. Em 1918, o mundo encerrava a Primeira Guerra Mundial e muitos soldados voltavam para suas casas. Além disso, a guerra também fez com que muitos países censurassem notícias e a Espanha, por ter ficado neutra no conflito, começou a noticiar uma febre mortal e aguda de 3 dias. Daí que surgiu o nome da gripe que, em dois anos de pandemia, provocou a morte de cerca de 50 a 100 milhões de pessoas.

Voltemos para 2020. O mundo é bem diferente de 1918. Além de não termos nenhuma grande guerra há muitos anos, a comunicação é exponencialmente maior. Ok, temos as viagens de aviões, que potencializam a distribuição do vírus (foi assim que o 2019-nCov chegou na França e nos EUA tão rápido), mas também temos vários cientistas de todo o mundo trabalhando para combater o novo vírus e a colaboração é muito maior. Segundo o UOL, ontem (28), a China concordou que a Organização Mundial de Saúde (OMS) envie especialistas internacionais ao país “o mais rápido possível” para ampliar a compreensão sobre um novo coronavírus e para orientar a resposta global ao surto, disse hoje à agência da Organização das Nações Unidas (ONU). A OMS, por exemplo, é de 1948. Em resumo, não devemos duvidar da força do 2019-nCov, mas também não estamos mais em 1918.

Pandemia: Como a Netflix previu o novo coronavírus

Lançado na última semana (22), “Pandemia: Como Prevenir uma Epidemia” (“Pandemic: How to Prevent an Outbreak”, título original) é uma série documental que mostra como pesquisadores e profissionais de saúde lutam para combater vírus pelo mundo. Da “inofensiva” gripe até o mortal Ebola, os seis episódios da série mostra a atuação de pessoas como Michel Yao, diretor da OMS na África Central e responsável pela luta contra o Ebola, passando por médicos de pequenas cidades nos EUA e Índia, até empreendedores, como Jacob Glanville, que busca criar uma vacina universal.

Uma coisa curiosa desta série é que, logo no primeiro episódio sobre pandemia, o Dr. Dennis Carroll, diretor da Unidade de Ameaças Emergentes da Agência Para o Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAID) afirma: “não há nenhum vírus da gripe mais perigoso circulando neste planeta hoje do que a gripe aviária na China”. O que se vê a seguir são registros do surto da H7N9, em 2013, um dos vírus com o maior índice de letalidade recente, mas com pouca capacidade de contaminação. Ele completa, “a gripe pandêmica provavelmente virá de um animal e será um vírus novo e nunca visto antes. Quando um novo virus surge de animais, não temos imunidade natural.”

Veja que curioso, apesar de se produzido antes do surgimento do novo coronavírus, Dr. Carroll praticamente descreve o novo vírus na série. Acredita-se que o 2019-nCov surgiu de animais vendidos em Wuhan (não acredite na história sobre a sopa de morcego e outras narrativas apocalípticas, para isso, sugiro que leia o texto “Coronavírus expõe a nossa desinformação sobre a China, o maior fenômeno econômico dos nossos tempos”).

Fecha a série discussões sobre o movimento antivacina e os impactos sociais, e como fake news (como a citada acima e outras tão mirabolantes quanto), alimentam grupo armados que, em países com governos fracos, combatem as equipes de saúde, criando uma Revolta da Vacina bem mais violenta do que a nossa de 1904.

Plague: Um simulador da vida real e dos vírus

Para fechar este texto, quero sugerir um jogo que, de forma lúdica, nos ensina muito sobre as capacidades de um vírus. Plague Inc. já foi citado no texto “Superbactérias: Novos medicamentos e games educativos”, aqui no InovaSocial, mas – devido os atuais acontecimentos – acredito que vale a pena relembrar. Com jogabilidade inovadora e algoritmos de propagação fiéis com a realidade, o enredo do jogo já resume sua tarefa: “Seu agente patogênico acabou de contaminar o ‘paciente zero’. Agora você deve acabar com a humanidade evoluindo para uma mortal praga global, enquanto se adapta a tudo que a humanidade pode fazer para se defender.” A Ndemic Creations, desenvolvedora do jogo, se viu obrigada em emitir um comunicado oficial. Confira:

O surto do [novo] coronavírus na China é profundamente preocupante e recebemos muitas perguntas de jogadores e da mídia. O Plague Inc. foi lançado há oito anos e sempre que há um surto de doença, vemos um aumento de jogadores, a medida que as pessoas buscam descobrir mais sobre como as doenças se espalham e entender as complexidades dos surtos virais. Nós projetamos o jogo especificamente para ser realista e informativo, sem sensacionalizar problemas sérios do mundo real. Isso foi reconhecido pelo CDC [Centros de Controle e Prevenção de Doenças, agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos] e outras organizações médicas líderes em todo o mundo. No entanto, lembre-se de que o Plague Inc. é um jogo, não um modelo científico, e que o atual surto de coronavírus é uma situação muito real e está impactando um grande número de pessoas. Nós sempre recomendamos que os jogadores obtenham suas informações diretamente das autoridades de saúde locais e globais.

Apesar do comunicado da Ndemic, que reforça o fato de Plague Inc. ser “apenas” um jogo, vale dizer que ele ensina bastante sobre patógenos (vírus, bactérias, etc.) e como podemos combatê-los. Em 2013, o então diretor do Escritório de Preparação e Resposta à Saúde Pública, do CDC americano, escreveu no site da agência: “Fiquei interessado no jogo de [James] Vaughan (criador do jogo) como uma ferramenta para ensinar o público sobre surtos e transmissão de doenças por causa da sua forma inovadora e não tradicional de conscientização do público sobre epidemiologia, transmissão de doenças e informações sobre uma pandemia.”

Assine nossa newsletter!

Para conferir em primeira mão os conteúdos do InovaSocial em seu e-mail, assine agora nossa newsletter.
Insira o seu e-mail