Novo ciclo do Capitalismo e seu impacto na sociedade

Na década de 20, o economista russo Nikolai Kondratiev desenvolveu um modelo chamado “Ondas longas” ou “Ciclos de Kondratiev” que descreve a existência de ciclos na dinâmica do capitalismo mundial. O modelo afirma que, a cada 50 anos (subdividido em 4 momentos: prosperidade, recessão, depressão e progresso), o capitalismo passa por um novo ciclo e se reinventa. Existe uma divergência no período dos ciclos, variando de 50 a 40 anos e a tecnologia impacta diretamente na duração, mas – segundo o modelo – hoje estamos entre o quinto e a sexto ciclo.

O economista afirma que “durante a fase de refluxo das longas ondas, um especial número de importantes descobertas e invenções nas técnicas de produção e comunicações foi realizado, a qual, entretanto, é usualmente aplicada em larga escala somente no início da próxima fase de ascensão da próxima longa onda.” Ou seja, os ciclos também estão conectados às novas tecnologias e suas aplicações.

Segundo Kondratiev, as tecnologias que guiam os períodos são: o primeiro ciclo é marcado pelo motor a vapor. Já o 2º ciclo são as ferrovias e o telégrafo (início da comunicação a longa distância); seguido pela eletricidade no 3º ciclo; o Fordismo e a energia nuclear no 4º ciclo; as telecomunicações e informática no 5º ciclo e a robótica e energias alternativas no 6º período. O último ciclo se assemelha bastante ao que também chamamos de 4ª Revolução Industrial (ou Indústria 4.0).

Consideramos a 4ª Revolução Industrial o momento da chegada do crescimento exponencial da capacidade de computação e a combinação de tecnologias físicas, digitais e biológicas. No setor agrícola, por exemplo, o uso da biotecnologia e da edição genética amplia consideravelmente a produtividade das plantas. Nas fazendas, robôs e drones com sensores conectados à internet, mecanismos de reconhecimento de imagem e inteligência artificial são capazes de identificar com antecedência doenças, pragas e condições ambientais adversas. De acordo com Regina Magalhães, gerente sênior de Sustentabilidade e Inovação para a América do Sul na Schneider Electric e Annelise Vendramini, ambas professoras da FGV EAESP, um dos pontos fortes da indústria 4.0 é que “as novas tecnologias podem contribuir para tornar a produção industrial mais eficiente, com redução de uso de recursos naturais, de geração de resíduos e de consumo de energia.” Além disso, “inteligência artificial, robótica e blockchain vêm também sendo utilizados para monitorar fauna e flora, poluição, certificação de origem e controle de cadeias de fornecimento.

O capitalismo não está morto ou será reinventado?

Os ciclos de Kondratiev tinham um objetivo prático na época em que foi apresentado. Encomendado pela URSS, a ideia era provar cientificamente que o capitalismo estava fadado ao fracasso. Muito mais do que o fracasso ou não, algo que já está em discussão atualmente é se o capitalismo, como conhecemos há tantos anos, resistirá às próximas décadas. No texto “Tendências para 2020: Ideias que mudarão o mundo – Parte 2”, afirmei que, com o crescente questionamento do valor do trabalho, a transformação do empreendedorismo social e as mudanças climáticas estão colocando o modelo do capitalismo em xeque. Já o ex-executivo do HSBC e especialista em análise quantitativa e qualitativa de dados, Jeremy Desir, escreveu em sua “Carta Aberta à Humanidade”, “o capitalismo está morto. E embora essas terras virgens que estão prestes a serem esmagadas, essas vidas frágeis que estão prestes a se afogar, possam nunca ver seu futuro florescer, o capitalismo está realmente morto em sua essência, como um conceito e uma força estruturadora de nossos afetos.”

Já no texto “Tendências para 2020: Ideias que mudarão o mundo – Parte 1”, os editores do LinkedIn afirmam que existem duas saídas:

  1. O capitalismo será reinventado, como prometido na declaração de agosto, assinada por 181 CEOs proeminentes. As empresas devem atender às necessidades de todas as partes interessadas, abandonar o curto prazo e trabalhar para melhorar a sociedade, não apenas lucrar com ela;
  2. Os eleitores e governos assumirão o controle dessa questão. Na campanha presidencial dos EUA, a questão dos ricos e pobres voltou a ser o centro das atenções. Warren e seu colega pré-candidato Bernie Sanders não ficaram impressionados com a declaração da Business Roundtable, considerando-a uma retórica vazia. “Precisamos ver alguma substância para compensar o cinismo” aconselha Jim O’Neill, economista e ex-ministro conservador do governo britânico. A reforma “não precisa acontecer por meio dos governos, mas eu suspeito fortemente que é a única maneira de acontecer”, acrescenta ele. “Negócios vivem de acordo com regras, e as regras não são suficientemente rígidas.”
As novas tecnologias e o novo ciclo do capitalismo

De acordo com Fabian Salum e Paulo Vicente dos Santos Alves, professores do Programa de Gestão Avançada da Fundação Dom Cabral e INSEAD, “a próxima revolução tecnológica forçará uma nova reinvenção do capitalismo. (…) As empresas conseguirão se adaptar? Temos algo que nenhum de nossos antecessores tinha: grandes volumes de dados. A capacidade de processar números para simular futuros cenários é um recurso exclusivo que pode impactar o ciclo tecnológico esperado no futuro. (…) Estamos na expectativa de saber se estamos vivendo o fim da predominância norte-americana como detentora do poder hegemônico global.”

A promessa é que século asiático surge no horizonte. “Em 2020, as economias asiáticas serão mais fortes do que todo o resto do mundo somado pela primeira vez desde o século XIX. A Ásia também abrigará mais da metade da classe média do mundo”. Se não findando, mas pelo menos reduzindo a predominância norte-americana como detentora do poder hegemônico global. Entretanto, assim como as guerras foram fatores importantes nos Ciclos de Kondratiev, as epidemias chinesas podem fazer o papel de crise do novo século e deste novo ciclo do capitalismo. Elas não precisarão ser tão mortais quanto as guerras, mas terão impactos consideráveis no nosso cotidiano. Vale lembrar que, só nas últimas duas décadas, já foram 2: SARS e, mais recentemente, 2019-nCoV (em Wuhan); e outras virão, pois o volume de pessoas aglomeradas, os desafios sanitários da China e o mundo mais conectado por meio de aviões e outros meios de transporte, são um caldeirão para o surgimento de novos vírus e, somado aos questionamentos do modelo tradicional do capitalismo, trarão um novo ciclo, não só para o capitalismo, mas para a sociedade como um todo.

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Créditos: Imagem Destaque – quietbits / Shutterstock

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