Moradores de rua: Os dois lados da moeda das pessoas invisíveis

Ricardo Corrêa da Silva e Samuel “Little” McDowell viveram quilômetros de distância um do outro, mas eles possuem algo muito importante em comum. Ambos foram moradores de rua, pessoas invisíveis. No entanto, as semelhanças terminam aí. Ricardo andava pela região da Rua Augusta, em São Paulo, e sua aparência rendeu o apelido de “Fofão da Augusta”. Apesar de ser acusado de pequenos furtos, Ricardo era inofensivo e faleceu em dezembro de 2017.

Samuel está vivo, mas não mora mais nas ruas. A sua residência atual é a prisão estadual da Califórnia, onde confessou mais de 90 assassinatos (pouco mais de 40 já verificados) cometidos entre a década de 70 e 2005. O número assustador coloca Samuel Little na liderança do ranking de maior assassino em série da história dos EUA.

Atualmente com 78 anos, Samuel não é e nunca foi nenhum gênio do crime. Garoto problema na adolescência, suas ações passaram despercebidas por uma questão de preconceito e, até certo ponto, por “pitadas” de incompetência da polícia. Isso porque suas principais vítimas eram dependentes de drogas, prostitutas, moradores de rua e pessoas transgêneras. Pessoas invisíveis.

Caso o número seja confirmado, Samuel assassinava, em média, 3 pessoas todos os anos, durante pouco mais de 30 anos. Estamos falando de pessoas mortas, não de pequenos furtos. Casos sem solução e que não chamavam a atenção da mídia e, se Samuel não confessasse, nunca seriam reabertos.

Onde quero chegar? O texto de hoje não é sobre moradores de rua ou assassinos em série, mas sobre empatia. São seres humanos, pessoas como você e eu, mas em situação desfavorável. Alguns por vícios, outros por problemas financeiros ou traumas. Você possivelmente conhece alguma história. Eu lembro de dois, uma auditora fiscal da Receita Federal que perdeu a mãe e, sem nenhum parente próximo, enlouqueceu e passou a andar pelas ruas do bairro falando sozinha. Depois de inúmeras tentativas, conseguiram interna-lá em um local especializado e lá ela viveu até seus últimos dias.

Tinha também o Badú, um rapaz jovem que perambulava pelas ruas do bairro e, de vez em quando, era expulso pelos comerciantes próximos da minha casa. Ninguém sabia o nome real do rapaz e ele tinha um afundamento no crânio que, provavelmente, implicava na comunicação rarefeita. Todo mundo expulsava Badú, mas todo mundo ajudava também. Foram os mesmos comerciantes que levaram o rapaz para o hospital, quando um grupo de jovens – que acabavam de desembarcar de uma BMW preta – espancou o morador de rua com uma chave de roda. Badú morreu e com ele sumiu a história desconhecida de um rapaz, assim como os assassinos daquela noite.

As pessoas invisíveis que moram nas ruas não são uma exclusividade das cidades brasileiras. No fim de 2018, uma série de 20 “fantasmas” surgiram pelas ruas de Berlim. Com corpo e roupa pintados de branco, os bonecos fizeram parte de uma ação contra gentrificação (fenômeno de “valorização” de um bairro, ao ponto em que “expulsa” a população de baixa renda que vivia ali). Criado pelo coletivo de artistas Reflektor Neukölln, “os bonecos são um sinal de protesto contra o rápido aumento dos aluguéis em Berlim e a consequente repressão das pessoas dos bairros em que eles viveram por anos”, afirma Matthias Holland-Moritz, responsável pela ação.

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Seja pela gentrificação, traumas ou vícios, moradores de rua deveriam deixar de serem pessoas invisíveis, para tornarem-se simplesmente pessoas. E quando uma pessoa é vista, ela pode ser identificada. E muitos podem ser como tantos Fofão da Augusta ou Badú, mas nesse meio pode ser que haja muitos Samuel Little não identificados, que passaram décadas eliminando uma parcela da população ignorada por tudo e por todos.

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