O futuro do trabalho e o surgimento da classe dos inúteis

Você já parou para pensar qual será o futuro da humanidade (a.k.a. o nosso futuro)? Ou como a nossa sociedade será estruturada? Não, eu não estou falando de futuros distópicos desenhados por filmes de ficção. Estou falando de coisas mais reais, como o envelhecimento da população, as novas formas de trabalho e/ou o surgimento de uma nova classe de pessoas.

No campo profissional, será que veremos o fim das carreiras tradicionais? Ainda serão valorizadas as mesmas competências humanas? Essas e outras questões foram levantadas e debatidas no estudo “Futuro do Trabalho”, um estudo feito pela WGSN e o LinkedIn. O levantamento cruzou análises de comportamentos e tendências com dados de mercado, para trazer respostas sobre o futuro, além de também mostrar como as habilidades humanas e tecnológicas podem andar juntas e serem complementares no mercado profissional.

Além do aspecto relacionado ao trabalho em si, a pesquisa também fez análises e insights sobre todas as etapas da carreira profissional: desde a educação, passando por remuneração, até orientações de como as pessoas podem se preparar para o que está por vir. Mas, afinal, o que está por vir?

Os novos consumidores e uma nova educação.

Assim como a grande maioria, a base de todo o estudo de tendências é o comportamento humano: como as pessoas estão se comportando, relacionando, suas prioridades. Essa perspectiva é o início de tudo. Vivemos em uma época em que as pessoas falam por meio de emojis, leem memes e escrevem com símbolos. Qualquer semelhança com a era pré-histórica não é mera coincidência, afinal, no cerne da comunicação está a vontade de traduzir pensamentos em símbolos. Trata-se de um resgate da essência da comunicação humana. Essa ‘nova comunicação’ ultrapassa as barreiras de línguas e localidades: todos podem se comunicar a qualquer momento.

Identificar-se com a causa de outra pessoa – além de ver relevância nisso – é uma das molas propulsoras da viralização que caracteriza tão bem as redes sociais digitais. Quando incluída a onipresença de aparelhos móveis é possível chegar a uma verdadeira “Era do Ativismo”, onde pessoas se concentram com facilidade em torno de interesses comuns e ganham poder de mobilização. Consequentemente, cresce a intenção de atender às necessidades das novas gerações. Por isso, escolas e startups de educação adotam estratégias inovadoras e revolucionárias.

Em primeiro lugar, os educadores estão buscando novas maneiras de preparar estudantes para tecnologias que ainda precisam ser inventadas. Para viabilizar isso, o currículo escolar começa a contemplar ferramentas e metodologias bem menos ortodoxas, como gamification e design thinking, que devem se tornar conceitos educacionais permanentes na grade das escolas. Escolas que experimentam modelos de ensino menos estruturados pretendem abolir muitas das regras que julgávamos fundamentais para o formato de educação.

Se a educação fundamental muda, o ensino superior também precisa mudar (e isso reflete no mercado profissional). As empresas do futuro vão procurar funcionários com uma gama diversificada de habilidades, que combinam capacidades técnicas com inteligência emocional e social. Para isso, é preciso reconhecer que aprendizagem é um estado de entrega permanente, afinal, quanto mais a tecnologia avança, mais desejaremos nos atualizar. Além disso, cultivar a criatividade, desenvolver inteligência emocional e construir empatia são as habilidades que os robôs ainda não podem substituir. E são essas características que os cursos estão desenvolvendo nos futuros profissionais.

Entre robôs e humanos, a classe dos inúteis.

Funcionando quase como um contraponto ao estudo citado acima (ou seria complementar? Ainda estou em dúvida), o professor israelense Yuval Noah Harari, autor do livro “Homo Deus: Uma breve história do amanhã”, fala sobre o surgimento de uma classe de humanos “inúteis”. São pessoas que não serão apenas desempregadas, serão “inúteis” porque não serão empregáveis.

Na visão de Harari, em 2050, alguns profissionais não conseguirão se reinventar e/ou se atualizar no mercado de trabalho e formarão uma classe inútil. A palavra pode ser um pouco forte, mas é com essa perspectiva crítica que Harari capta nossa atenção para um problema que está logo aí (30 anos em escala histórica é daqui alguns segundos). A grande pergunta não é como realocar essa nova classe ou alimentar (na visão do professor, um esquema de renda básica universal é algo factível para o futuro que se aproxima), mas como vamos manter essa massa de pessoas ocupadas e satisfeitas. Do contrário, elas irão enlouquecer ou definhar.

Sabe aquele seu parente, que passou os últimos 40 anos trabalhando na mesma empresa, e agora está recém aposentado? Se você não sabe do que estou falando, sugiro que assista à série “Samurai Gourmet”, que conta a história de um japonês recém aposentado, que se vê com muitas horas livres, mas não faz ideia do que fazer com isso. A classe dos inúteis será algo como se você estivesse se aposentando com 40 anos. A primeira semana será algo fantástico, a segunda será divertida, mas no terceiro mês você estará deprimido e entediado. E isso só gera uma bola de neve, ou seja, a depressão gera outras doenças, que sobrecarrega o sistema de saúde, que acaba colapsando a sociedade como um todo.

Voltando as previsões de Harari, uma das novas profissões que deve surgir neste cenário é a de designers de mundos virtuais. Segundo ele, uma maneira de deixar essa classe feliz e entretida, é o uso de realidade virtual em 3D. Para o historiador, um exemplo de como funcionará o mundo pós-trabalho já pode ser observado nos dias de hoje na sociedade israelense. Segundo ele, alguns judeus ultraortodoxos não trabalham e passam a vida inteira estudando escrituras sagradas e realizando rituais religiosos. Esses homens e suas famílias são mantidos pelo trabalho de suas esposas e subsídios governamentais. “Apesar desses homens serem pobres e nunca trabalharem, pesquisa após pesquisa eles relatam níveis de satisfação mais altos que qualquer outro setor da sociedade israelense”, afirma Harari.

Mas e a realidade? Será que realmente queremos viver em um mundo em que bilhões de pessoas estão imersas em fantasias, perseguindo metas de faz de conta e obedecendo a leis imaginárias? Bem, goste ou não, esse é o mundo em que vivemos há milhares de anos. Para entender melhor, convido a assistir ao TED de 2015, “What explains the rise of humans?” (O que explica a ascensão dos humanos?). Um pequeno spoiler: No fim do vídeo, Harari comenta sobre a classe de inúteis.

O trabalho em uma sociedade pós-trabalho.

Voltando ao cenário dos “empregados”. Antes mesmo que uma revolução aconteça no mercado de trabalho, os jovens que estão no mercado atual já estão causando alterações importantes no modelo corporativo. Tudo começou quando os millennials decidiram que não queriam limitar sua vida, já muito tomada por trabalho, a um ambiente entre quatro paredes. Isso não era nem um pouco sedutor para eles e, mais grave, não era produtivo.

Por isso, essa geração transformou o estilo de vida autônomo em uma de suas maiores marcas. Isso só foi possível graças à mobilidade, proporcionada pelo boom da tecnologia mobile e pela tolerância com trabalhos remotos, que começaram com os famosos home offices. Com essa visão, a flexibilização de carga horária e de local de trabalho deixará de ser uma possibilidade para ser uma necessidade. Visto isso, o estudo feito pela WGSN e o LinkedIn rastreou as tendências dos últimos dois anos para chegar nas 3 maiores apostas dos especialistas para o futuro:

O futuro é híbrido e colaborativo: A humanidade floresceu graças à colaboração. Nós humanos fazemos isso extremamente bem. Então por que não aplicar essa mesma relação colaborativa entre pessoas e máquinas? A indústria de robótica colaborativa está projetada para valer mais de US $ 1 bilhão até 2020, à medida que entramos em uma nova era de formação de equipes de robôs e humanos.

Reescrevendo os códigos de criatividade: De códigos biológicos a códigos de vestimenta, passando por códigos de comportamento, logo será possível reprojetar quase tudo. A natureza e a tecnologia serão intimamente misturadas para criar novos sistemas, materiais e produtos que fundem os mundos físico e digital.

A emoção no centro de tudo: O quociente emocional (QE) está emergindo como uma habilidade não só desejada como essencial na vida profissional, como muitas empresas estão investindo em treinamento de funcionários para garantir isso. Ao mesmo tempo, o terceiro setor está sendo entregue a sistemas automatizados. Devemos nos perguntar como as empresas podem construir inteligência emocional em serviços e na cadeia de valor? Como atender a consumidores que se importam com os valores das empresas de quem contratam serviços e compram produtos? Como refletir esses valores nas marcas e como garantir uma relação mais emocional com consumidores, como um contrapeso a alta tecnologia?

Antes de concluir nosso texto de hoje, quero fazer um pequeno agradecimento. Um singelo agradecimento a você, leitor(a) que chegou até aqui. Falar sobre o futuro do trabalho não é algo simples e demanda um texto longo, com várias opiniões diferentes sobre um mesmo tema. A verdade é que, assim como Yuval Noah Harari fala no TED citado neste texto, “nada disso é uma profecia; é ver todos os tipos de possibilidade diante de nós”. E o futuro do trabalho é exatamente isso, uma infinidade de possibilidades… seja para quem nasce nela, para quem terá que se reinventar e, até mesmo, para quem será parte de uma classe “inútil”.

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