Cuidado! Acreditar em fake news pode nos custar a democracia

Pode não parecer, mas as eleições brasileiras já começaram há meses, principalmente quando o cenário em questão são redes sociais. No entanto, isso tudo ainda é muito nebuloso. Afinal, os bots e as fake news não são a linha de frente na comunicação dos candidatos e, talvez, nós só sentiremos a verdadeira realidade desta “guerra virtual” daqui alguns meses. Pode parecer um discurso apocalíptico ou conspiratório, mas basta ter alguns anos de mercado para entender como essa “ciranda gira”.

Falando exclusivamente do cenário brasileiro (mais a frente vamos falar sobre a campanha Trump e como o brasileiro devia estar atento ao caso americano), o InovaSocial já publicou em agosto de 2018, no texto “Estudo revela interferência de robôs nos debates políticos no Brasil”, produzido pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/DAPP), que perfis fakes estão agindo em debates políticos no Twitter desde as eleições de 2014.

Durante as eleições presidenciais de 2014, os robôs também chegaram a gerar mais de 10% do debate. – Robôs, redes sociais e política no Brasil – FGV DAPP

O grande ponto que muita gente parece ignorar é que esses bots não são desligados (não faria sentido). Uma vez ativo, eles seguem compartilhando fake news e good news, a fim de criar perfis mais realistas. Oras, se um perfil – Facebook ou Twitter – foi criado em 2014 e seguiu sendo alimentado 1 vez por semana, hoje ele teria cerca de 200 mensagens. Um volume bem considerável de informação e bem semelhante a uma pessoa que usa casualmente uma rede social. Para complicar (ou ajudar, dependendo do ponto de vista), esses perfis compartilham coisas aleatórias no seu período de “hibernação”. Ou seja, entre uma discussão política e outra, um tweet sobre o Flamengo e/ou uma foto de cachorrinho são bons conteúdos para mascarar essa guerrilha virtual. Uma receita bem preparada, não? Para apimentar isso tudo, segundo a Content Trends, 72% das pessoas* afirmam que posts em redes sociais são o principal forma de consumir conteúdo (*pesquisa feita em diversos países).

Isso tudo seria quase invisível para nós se não fosse por um nome: Cambridge Analytica. A empresa inglesa está no meio do furacão, e maior escândalo, envolvendo o Facebook e a coleta de 50 milhões de perfis sem permissão. Resumindo o sistema usado pela empresa, a Cambridge Analytica usou um aplicativo para coletar perfis do Facebook por meio de download de uma ferramenta. Até aí, (quase) tudo bem. Afinal, não é nada que muitas empresas já não façam. Mas como um aplicativo com 270 mil downloads chegou aos 50 87 milhões (Mark Zuckerberg revisou os números no dia 04/04)? Isso porque ele não coletava apenas as suas informações, mas, também, as dos seus amigos. E, caro leitor(a), saber analisar big data é ter um poder gigantesco nas mãos.

Para quem não está familiarizado com os termos, vamos fazer uma analogia. Imagine que cada um de nós é uma bolinha colorida em um grande saco (o Facebook). Olhando de fora, você não sabe quem é vermelha, quem é azul, quem é brilhante ou quem é opaca. Só sabe que existe um monte de bolinhas ali dentro. Quando você extrai essas informações do “saco”, pode separá-las por padrões. Por exemplo, aquelas “bolinhas” que não gostam de imigrantes, provavelmente receberão notícias (fake news) de que o candidato X está incentivando a abertura das fronteiras e que o candidato Y é mais parecido com eles. Quando isso é feito em escala, podemos manipular opiniões.

Essa é a grande acusação contra a campanha de Donald Trump. De acordo com representantes do partido republicano, durante a campanha, foram gastos mais de 70 milhões de dólares só no Facebook. Dá para imaginar o que se consegue com informação + milhões de dólares? Eu arriscaria em dizer que dá para conseguir um dos cargos mais importantes do mundo.

Agora imagine este cenário no Brasil, onde – de acordo com o Hootsuite – a penetração das redes sociais é de 58% e, só no Facebook, são mais de 130 milhões de brasileiros ativos. Subestimar o poder da fake news pode nos custar bem caro. Tão caro que o preço pode ser a nossa democracia.

O ministro Luiz Fux, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, afirmou – de acordo com o site Globo.com – que o tribunal está preparado para combater as fakes news e vai investigar as produtoras de notícias falsas. Mas eu tenho o sentimento que o brasileiro tem o costume de falar “ah, isso é para amanhã? então depois eu resolvo”. O que quero dizer com isso? Longe de ser uma crítica política, acredito que o ministro Fux não devia dizer que “vai investigar”, mas que esse processo já começou. E, de novo, como falei no início do texto, as eleições já começaram.

Para nós, eleitores – independente de ideologia ou crença -, eu uso as palavras do ET Bilu: “Busquem conhecimento.” Duvide de tudo e de todas as notícias. Procure saber se aquilo é verdade (mesmo que faça sentido). Questione. E acima de tudo, não saia compartilhando qualquer coisa, ou você será apenas um bot com corpo de ser humano.

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