Um mundo de extremos: O que devemos aprender com o Impossible Whopper

O mundo virou um lugar de extremos. E eu nem estou falando sobre política. Em nosso último podcast, falamos como o fundador da gigante chinesa Alibaba, Jack Ma, virou um dos “grandes embaixadores” do sistema 996, que prega jornadas de trabalho com 12 horas diárias e durante 6 dias da semana. Estamos falando de 72 horas semanais (algo bem superior às 44 horas semanais previstas na CLT). Pode parecer loucura para alguns, mas teve gente defendendo uma “reavaliação da nossa cultura Millennial” em prol do 996. Ouça mais sobre o sistema no player abaixo (para ouvir o episódio completo, é preciso estar logado no Spotify – se preferir, clique aqui para ouvir o episódio no SoundCloud).

Ainda falando sobre trabalho, no fim de 2018, falamos sobre ”o futuro do trabalho e o surgimento da classe ‘dos inúteis’” e como a renda básica universal pode impactar o nosso cotidiano do futuro. Sobre isso, a Previdência Social da Finlândia encerrou o projeto-piloto de dois anos, que resultou em conclusões ambíguas. Se por um lado, saúde, autoestima e o otimismo dos beneficiários melhoraram, por outro, ainda existe um longo caminho a se percorrer e, nem aqueles que são a favor, e nem os contras, conseguiram achar uma resposta definitiva para a questão. Para quem quiser entender melhor a questão, sugiro a leitura do texto do El País.

Já quando o assunto é recursos naturais, o Dia da Terra de 2019 serviu para nos lembrar que estamos vivendo no “cheque especial” dos recursos do planeta desde 1º de agosto de 2018. Consumimos mais rápido do que a Terra consegue se regenerar. Reflexo do nosso estilo de vida e crescimento populacional exponencial (que, desde a Peste Bubônica, não parou de crescer – veja no vídeo abaixo).

Isso tudo foi apenas uma introdução para dizer que precisamos retomar a sustentabilidade, ou deixaremos de existir. E não estou falando apenas na sustentabilidade do ponto de vista ambiental, mas o de nossas vidas. Quanto tempo você acha que um ser humano consegue sobreviver trabalhando 12 horas por dia durante 6 dias na semana? Quanto tempo até ele ter uma síncope por estresse? Em contraponto, como mantemos uma economia aquecida e competitiva, sem mão de obra? Para alguns, a resposta mais fácil pode ser “oras, os robôs estão aí para isso”. Ok, então vou reformular a minha pergunta: O que fazemos com os desempregados que foram substituídos por robôs? Infelizmente a minha resposta é que esta equação não fecha. Não sem inovação, não sem revermos nossos conceitos.

Eu não tenho a resposta para as perguntas acimas. Pelo contrário, o texto pretende ser muito mais reflexivo, do que resolutivo. E para isso, quero trazer um exemplo de inovação, quebra de paradigmas e solução sustentável. Você talvez já tenha ouvido falar na Impossible Foods, empresa fundada pelo bioquímico Patrick O. Brown, que inventou heme com base vegetal (uma molécula que contém ferro e ocorre naturalmente em todas as plantas e animais. No caso da heme da Impossible, isso é feito a partir de raízes de soja e fermento geneticamente modificado) que dá sabor e características de carne bovina a um hambúrguer vegetariano.

A coisa toda é tão inovadora, que a Food and Drug Administration (FDA), agência do governo norte-americano responsável pela proteção e promoção da saúde pública através do controle e supervisão da segurança alimentar, afirmou em abril de 2018 que “heme com base vegetal é tão nova que o órgão precisaria de mais evidências para conceder sua aprovação.”

Menos de um ano depois, mais precisamente no dia 1º de abril de 2019, o Burger King anunciou o Impossible Whopper, hambúrguer feito em parceria com a empresa de carne vegetal. Apesar da Beyond Meat, concorrente da Impossible Foods, estar disponível em mais de mil restaurantes Carl’s Jr. desde janeiro, o acordo com a gigante de fast food coloca a Impossible em outro patamar por dois motivos: 1º – Burger King é global e a sua escala nem se compara com a Carl’s Jr.; 2º – Marketing é a alma do negócio e isso o Burger King sabe fazer muito bem.

Impossible Whopper: O que um hambúrguer vegetariano tem a ver com sustentabilidade?

De acordo com Fernando Machado, diretor de marketing do Burger King, o Impossible Whopper está em fase de testes nos 59 restaurantes na área de St. Louis, no Missouri, mas “a empresa tem planos de expandi-lo rapidamente para todas as filiais do país, se tudo em Saint Louis ocorrer sem problemas.” Estamos falando em 7.200 lojas só nos EUA. Vamos dizer que cada unidade americana venda 1 (sim, apenas um único Impossible Whopper de 200g) por dia, já estamos falando de, aproximadamente, 1 tonelada e meia de carne. Segundo o site Water Footprint, isso representa 22 milhões de litros de água (cerca de 15.500 litros de água na produção de 1 kg de carne bovina). Além disso, a produção de carne é um dos maiores contribuidores individuais para a mudança climática.

Tirando todo esse impacto ambiental, o hambúrguer vegetariano – seja da Impossible, Beyond Meat ou qualquer outra empresa do tipo – representa uma inovação importante, mas também uma quebra de paradigmas e pré-conceitos sobre a comida 100% vegetal. Segundo Patrick Brown, “os consumidores só fariam uma mudança se tivessem um produto que satisfizesse seus desejos por carne bovina.” Brown ainda afirma, em entrevista para o The New York Times, que “todo o nosso foco está em fazer produtos que entreguem tudo com o que os amantes da carne se importam.” Ou seja, não basta ser bom para o meio ambiente, precisa ser bom para o consumidor.

Voltando ao começo do nosso texto, o Impossible Whopper pode se tornar um ótimo exemplo de solução que, ao mesmo tempo que impacta o meio ambiente, também atinge nosso cotidiano. É uma alternativa que reinventa o modo como o ser humano consome carne nos últimos milhares de ano. É este tipo de inovação que devemos buscar no nosso modo de trabalhar, no nosso modo de consumir recursos naturais, no nosso modo de viver. Uma inovação que vá além do impacto e reinventa costumes antigos, só assim conseguiremos um equilíbrio sem partir para alternativas extremas.

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