O lado social do Uber e a solução da periferia

Volta e meia, durante nossos bate papos internos, discutimos o papel social do Uber no Brasil. Independente da disputa com os táxis ou da qualidade do serviço, muita gente afirma que o Uber é uma excelente ferramenta social porque deu oportunidade para muitos desempregados. No entanto, nem tudo são flores no mundo dos transportes privados.

Começando pelas exigências do aplicativo, que não são nada “sociais”. Os carros precisam ter, no mínimo, 9 anos e ar condicionado. Sem contar que sempre escuto motorista reclamando do volume da frota. Foi o tempo que os motoristas tiravam boas quantias no final do mês. A concorrência é alta e só cresce.

Agora chegamos no ponto da nossa real discussão. O social não está só no âmbito do motorista, mas também dos passageiros. São carros particulares e vão para onde querem. Quero dizer, por que vão ficar atendendo na periferia, se o lucro está nas regiões mais caras da cidade? Em resumo, ninguém quer subir o morro (se nem os Correios vão, que dirá o um motorista de Uber).

Na verdade, algumas regiões são até excluídas do aplicativo, ou seja, nem se o motorista quiser, terá chamado ali naquele ponto. Sim, nós sabemos que é uma questão de segurança, mas como fica as pessoas que moram na região? Uma matéria da BBC Brasil mostrou como um tatuador, de 40 anos, e um motorista, de 48, ambos moradores do bairro da Brasilândia, extremo norte da capital paulista, criaram a Ubra (União da Brasilândia), um “uber” da periferia.

Emerson Lima e Alvimar da Silva, criadores da Ubra, explicam que todas as solicitações são feitas por um celular com WhatsApp e um telefone fixo. “A demanda está muito grande e a gente já está perdendo corrida. A área tem uma carência grave de transporte, principalmente à noite”, afirma Emerson para a BBC.

Assim como o Uber, a Ubra também tem seu guia para motoristas. “Não é qualquer um que sabe andar no morro. Nossos motoristas usam carro prata para não chamar a atenção e andam com o vidro abaixado. Em alguns pontos, eles são orientados a tirar o cinto de segurança, colocar o cotovelo para fora e fazer cara de mau. Tudo o que a gente aprendeu na quebrada”, relata Emerson. Nada convencional, nós sabemos, mas funciona.

Agora, se você está pensando apenas na questão de “luxo”, ou seja, de não querer pegar um ônibus, convido você a deixar este pensamento de lado e ver este exemplo. “Esses dias, minha filha também passou mal de madrugada e eles me levaram e buscaram muito rápido”, afirma a operadora de caixa Aline Alves para a BBC. Este é apenas um dos exemplos de impacto social.

O Ubra pode não se “vender” como um empreendedorismo social, mas, nas entrelinhas, é fácil perceber o seu objetivo focado na comunidade em que atende. “É cada um na sua área. Eu tenho certeza que essa modalidade vai expandir. Eu posso até orientar, mas eu não vou me meter em lugares que eu não conheço”, afirma o fundador da Ubra. Precisa dizer mais?

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