Você sabia que um terço dos alimentos produzidos no mundo vão para o lixo?

Não é novidade que Massimo Bottura, chef de renome mundial, não gosta de desperdiçar comida. Aqui no InovaSocial já contamos a história do Risotto Cacio e Pepe, uma receita desenvolvida em 2012 pelo próprio Bottura, com o objetivo de impulsionar as vendas do famoso Parmigiano-Reggiano e salvar os queijeiros da região de Módena, que teve 360 mil peças de queijo parmesão danificadas após um terremoto atingir o Norte da Itália. Já em 2016, durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, ele inaugurou o ReffetoRio Gastromotiva, que usou sobras de ingredientes da Vila Olímpica para alimentar 5.000 pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Durante sua participação no palco do Fast Company European Innovation Festival, que aconteceu na semana passada, em Milão, Bottura contou que passou os últimos anos pensando em todas as outras formas de desperdício de comida no mundo.

Chef Massimo Bottura no Fast Company European Innovation Festival | Foto: Celine Grouard
Chef Massimo Bottura no Fast Company European Innovation Festival | Foto: Celine Grouard

Os números são impressionantes. Em todo o mundo, nós desperdiçamos cerca de um terço dos alimentos que produzimos. E isso acontece por vários motivos. Às vezes, é uma questão de logística. A comida costuma ficar ruim antes de chegar ao seu destino final na cadeia de fornecimento global.

Às vezes, é o excesso. As pessoas que vivem em países desenvolvidos muitas vezes compram mais alimentos do que precisam, e os descartam quando chega sua data de validade.

Para Bottura, o desperdício de alimentos é um dos principais contribuintes para a mudança climática. São necessários muitos recursos, água e capital humano para cultivar e distribuir alimentos, muitos dos quais nem sequer são consumidos.

Durante suas viagens pelo mundo, o chef descobriu que o desperdício de comida é um problema em muitos lugares. Em sua passagem pelo Brasil, por exemplo, ele descobriu que 11 caminhões de frutas e verduras são queimados todos os dias, embora existam 2,5 milhões de desabrigados que poderiam realmente usar essa comida como alimento.

“Distribuir a comida é mais caro do que queimá-la”, diz.

Bottura está agora empenhado em resolver esse problema. Sua experiência com as peças de Parmigiano Reggiano, lá em 2012, o ajudou a ver como ser chefe de cozinha lhe proporciona uma plataforma para difundir a conscientização sobre questões importantes.

“Comida não tem a ver com a qualidade de ingredientes”, diz ele. “Mas sim com qualidade de ideias. Chefs podem fazer muito mais do que apenas cortar legumes e fritá-los em uma panela.”

Em 2016, Bottura lançou uma iniciativa chamada Food for Soul, que oferece uma nova maneira criativa de chamar a atenção para a situação do desperdício de alimentos. O projeto consiste na formação de uma rede de cozinhas comunitárias em Paris, Milão, Rio de Janeiro e Londres, onde ele e suas equipes cozinham alimentos que seriam desperdiçados. E então, pessoas da comunidade local são convidadas para essas refeições. Alguns desses convidados são pessoas em situação de vulnerabilidade social, mas Bottura deixa bem claro que isso é um projeto cultural e não um projeto de caridade.

“Servir uma refeição adequada em um ambiente bonito pode reconstruir a dignidade das pessoas”, diz ele. “Passar tempo com outras pessoas em um jantar descontraído pode restaurar almas frágeis”.

A ideia principal do Food for Soul é restaurar o valor da comida que seria desperdiçada e também fazer com que as pessoas que participam das refeições se sintam, de certa forma, renovadas. Para Bottura, uma parte essencial da experiência é que os convidados sintam-se bem-vindos e especiais, como se estivessem no restaurante principal do chef, a Osteria Francescana.

Embora Bottura esteja interessado em ajudar pessoas que geralmente não têm o que comer, o objetivo desses refeitórios é chamar a atenção para a quantidade de comida desperdiçada todos os dias. Cada refeição é feita usando alimentos que de outra forma acabariam no lixo. Um prato, por exemplo, usa migalhas de pão e tomates maduros, levemente machucados. Nas mãos de Bottura, esses ingredientes se transformam em macarrão (que ele afirma ser o prato favorito de seu filho).

Bottura diz se sentir sortudo por viver em uma época em que os chefs de sucesso têm uma plataforma para se comunicar e disseminar suas ideias. E ele não quer deixar de aproveitar isso.

Saber que desperdiçamos um terço dos nossos alimentos é uma notícia que deixa um sabor amargo na boca, mas é inspirador saber que pessoas como Massimo Bottura estão olhando o problema de frente e traçando formas para resolvê-lo e inspirar outras pessoas ao redor do mundo a fazer o mesmo.

Para conhecer mais sobre a história de Massimo Bottura, seus talentos e sua missão, recomendamos que você assista ao primeiro episódio da primeira temporada de Chef’s Table, da Netflix. É uma produção de encher os olhos e que nos mostra que, de fato, um chef pode (e deve) ser muito mais do que a soma de suas receitas.

__

Gostou do texto e quer fazer parte da nossa comunidade? Envie uma sugestão de pauta, um texto autoral ou críticas sobre o conteúdo para contato@inovasocial.com.br.

Créditos: Imagem Destaque – Shutterstock / KaliAntye

Receba conteúdo exclusivo

Para não perder os próximos conteúdos do InovaSocial e receber materiais exclusivo em seu e-mail, assine agora a nossa newsletter.
Insira o seu e-mail