Kara Solar: Barco elétrico preserva meio ambiente e resgata lenda indígena

Os veículos elétricos são uma realidade tão atual, que a discussão tem chegado até nas comunidades indígenas equatorianas. O Achuar é uma tribo de semi-nômades que vivem da pesca e da caça, mas que tem visto uma profunda mudança no seu estilo de vida nos últimos 50 anos. Dentre estas mudanças, está o uso de barcos a motor, algo antes feito apenas com canoas. Como grande parte dos trajetos entre comunidades Achuar são feitos pelos rios, isso tem resultado em milhares de galões de gasolina e diesel sendo despejados nas águas. Foi pensando neste problema que a Latin American Association for Alternative Development (ALDEA) e a Achuar Nationality of Ecuador (NAE) desenvolveram o projeto Kara Solar, um sistema de transporte comunitário alimentado por energia solar, autônomo e específico para os rios da floresta amazônica.

A solução é bem simples. Uma longa canoa dotada de painéis solares e baterias que alimentam as motores (lembra quando falamos sobre “a simplicidade é a solução para os nossos problemas”? Aí está um belo exemplo). Outra parte interessante do projeto é a sua simbologia e como, apesar de impactar no estilo de vida da tribo, mantém viva suas tradiçòes. A Tapiatpia, como é chamada a canoa solar, é um ser da mitologia Achuar. Diz a lenda que Tapiatpia era uma enguia elétrica gigante que, de tão grande, transportava todos os animais da floresta pelas águas dos rios locais. O projeto não para por aí, na língua Achuar, “kara” significa sonho, ou seja, Kara Solar é um sonho solar, um sonho que virou realidade e tem colaborado com o meio ambiente.

O atual sistema, ainda em testes, atende nove comunidades Achuar, localizadas ao longo de 67km dos rios Capahuari e Pastaza. Cada embarcação consegue comportar 18 pessoas e 3 tripulantes, responsáveis pelo gerenciamento do sistema. O protótipo do barco foi projetado e executado pelo Centro de Engenharia Oceânica do MIT, ESPOL, The Quito Metropolitan Institute of Design, Codesolar e Tecnavin, além do professor Jean-David Caprace, atualmente professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O InovaSocial conversou com o professor Jean-David Caprace sobre a iniciativa. De acordo com Caprace, o papel dele no projeto foi duplo. “Fizemos um estudo preliminar de navegabilidade dos rios da região. Isso envolveu uma viagem de duas semanas no local, envolvendo alunos equatorianos, para efetuar medições de profundidade, corrente, identificação de obstáculos e regime de escoamento da água. Logo, foi desenvolvido um indicador capaz de medir a qualidade da navegabilidade por cada quilômetro dos rios da região. Graças a este estudo, foi identificado a zona de navegação da primeira embarcação Kara Solar assim como as comunidades que podiam participar do projeto.” Ele continua, “no momento do projeto da embarcação, fomos envolvido no delicado cálculo de estabilidade da embarcação. Por ter painéis solares no teto, esses resultados foram críticos para a segurança da tripulação e usuários.

Caprace também afirmou que “o Kara Solar é um projeto piloto que, pela inovação, vai reduzir o uso de combustíveis fósseis para a propulsão própria das canoas usadas pelas comunidades locais. Na minha visão, a demonstração da viabilidade de uma embarcação totalmente autônoma para a Amazônia teve uma repercussão na imprensa maior do que o real ganho sobre o meio ambiente. Embora, no futuro, a aplicação dessa solução a grande escala poderia ter um papel fundamental sobre a mobilidade sustentável dessa região.” Ele continua, “além do desafio tecnológico, a captação de recursos foi provavelmente o maior desafio. De fato, por essa razão o projeto demorou mais de 5 anos a se concretizar.

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