Reflorestamento no Camboja traz chuvas de volta para região seca

Durante o século XII, as pessoas iam à montanha Kulen (Camboja), um local sagrado associado à fertilidade, para cortar enormes pedaços de pedra, que eram arrastados por elefantes. Nas últimas décadas, apesar de Kulen se tornar uma área protegida, as pessoas vão ao local não só para colher lichias, mas também para derrubar árvores para trocá-las por madeira de lei ou carvão nas cidades mais abaixo da formação rochosa.. O desmatamento ilegal do parque nacional de Kulen causou um grande impacto na floresta. Com a diminuição da cobertura das árvores, as pessoas que moravam no topo da montanha perceberam que as nuvens de chuva que costumavam se reunir sobre a floresta estavam encolhendo até desaparecerem completamente.

“As grandes árvores que costumavam ficar aqui atraíram a chuva. Quando elas se foram, descobrimos que não tínhamos água e nossa área estava secando ”, disse Yuth Thy.

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Com financiamento do Fundo de Adaptação, a ONU Meio Ambiente ajudou o governo do Camboja e parceiros a construir um viveiro e fornecer materiais para o cultivo de árvores em Kulen. Desde que o projeto começou, em 2014, Thy dedicou horas do seu dia, todos os dias, cuidando das mudas, na esperança de atrasar ou reverter os efeitos do aumento das temperaturas e chuvas irregulares.

“Quando eu era criança, havia muita chuva e até granizo, e fazia frio. Me lembro de ver o vapor saindo da minha boca quando falava. Agora há menos chuva e nunca faz frio”, disse Thy.

Até agora, o projeto ajudou a comunidade de cerca de 300 pessoas em Chuok Tasok a cultivar 100 mil muda, e também doou mudas e apoiou grupos de patrulha no plantio de mais de um quarto de milhão de árvores e na proteção de 306 hectares de florestas, contra madeireiros ilegais.

“Quando começamos a plantar, todo mundo ajudou”, disse Thuch Ron, que chefia a área protegida da comunidade de Chuop Tasok. “Quando este viveiro produz mudas e restaura a cobertura florestal, temos mais chuva e uma melhor colheita de arroz.”

Antes, quando as colheitas de arroz fracassavam devido à seca, as pessoas precisavam que vender seus animais ou bens para comprar comida. O projeto diminuiu a dependência das pessoas na agricultura centrada na chuva e proporcionou dietas diversificadas, construindo residências e oferecendo treinamentos e sementes às escolas e às famílias, para ajudar na criação de hortas domésticas, poços para irrigação e até mesmo criação de galinhas. Os aldeões também têm agora um suprimento garantido de água fresca de um pequeno reservatório escavado nas nascentes a poucos quilômetros da montanha.

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“Sem o reservatório, levava muito tempo para buscar água e, na estação seca, conseguir água era algo muito difícil”, disse Chong Pring, um jovem de 25 anos de idade, morador da aldeia de Kla Khmoum. “Agora, a água vai diretamente para nossas casas, em canos, e podemos facilmente consumi-la e usá-la para regar nossos jardins.”

Outro benefício proporcionado pelo aumento da cobertura florestal é a abundância de mel silvestre, que as pessoas coletam e vendem para turistas e moradores locais das aldeias e fazendas vizinhas. Mas a maior alegria e alívio para o povo de Kulen foi ver as chuvas retornarem à sua área.

“Antes de 2014, a chovia pouco, mas agora está melhor, especialmente este ano”, disse Ron.

As pessoas não precisam mais procurar por raízes na floresta quando a colheita não é boa. Os sinais de melhoria de saúde e renda são visíveis na aldeia de 65 famílias, onde 54 famílias têm hortas, 25 têm galinhas e as passagens são forradas com árvores onde brotam abacates, jacas e mangas. A comunidade começou a compartilhar mudas com outra aldeia próxima, que viu o sucesso da área protegida da comunidade com o reflorestamento e montou seu próprio viveiro de árvores para cultivar mudas de espécies raras, a fim de restaurar outras áreas desmatadas. Na escola local, as crianças aprendem sobre as mudanças climáticas e a importância de manter a cobertura florestal. A filha de Thy já sabe cuidar das mudas.

“Eu digo a ela que ela precisa cuidar das árvores e elas vão cuidar dela, fornecendo materiais para construir uma casa, por exemplo. E digo a ela que quando você protege as árvores e a floresta, elas trazem chuva e deixam o clima mais freco,” disse ela. Thy é uma dos dez membros eleitos pela comunidade para cuidar do viveiro de árvores. Ela recebe cerca de US$ 7,50 por mês para fazer isso, mas em alguns dias passa quatro horas cuidando das ervas daninhas, regando e cuidando das mudas. “Estou comprometida com este trabalho porque quero que a próxima geração tenha árvores.”

Ron está muito satisfeito com o treinamento que ele e sua equipe receberam para produzir mudas e está inspirando outras aldeias e gerações a restaurar a grandeza de sua área.

“Tenho orgulho de ter criado este viveiro no Camboja, no topo da montanha. E estou orgulhoso por ter trazido a chuva de volta”, diz Ron.

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Créditos: Imagem destaque – Por James Wheeler

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