O Círculo: Quando o desejo de poder e controle se disfarça de Inovação Social

Você já cansou de nos ler falando que a forma como trabalhamos mudou. Se há 20 anos era perfeitamente comum que grande parte da população saísse às 7h para trabalhar e voltasse para o jantar, deixando a vida pessoal em casa e o trabalho no trabalho; hoje, nós temos diversas formas diferentes de trabalhar. Tem quem trabalha em casa, tem quem trabalha em espaços de cowork, tem quem trabalha enquanto viaja o mundo. E mesmo se você não faz parte desse grupo de pessoas que não trabalha em um lugar ou horário fixos, se você trabalha em uma empresa onde entra às 9h e sai às 18h, não dá pra negar que a forma como você trabalha também mudou. Existe o grupo de WhatsApp da firma, que faz com que você já acorde sabendo tudo o que está acontecendo, mesmo quando não é o primeiro a chegar no escritório. E, ao mesmo tempo, tem o grupo de WhatsApp da família, dos amigos, as redes sociais… Tudo.

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Se há 20 anos nós deixávamos nossa vida pessoal em casa e a vida profissional no escritório (existe uma cena em Edward Mãos de Tesoura, de 1990, que ilustra muito bem isso), hoje a tecnologia permite que nossas essas duas vidas aconteçam ao mesmo tempo.

Você toma seu café da manhã respondendo e-mails do trabalho e, entre uma reunião e outra, vê um vídeo do seu sobrinho comendo brócolis pela primeira vez. Seus amigos do trabalho te chamam para jantar no fim de semana e talvez você até seja convidado para ser padrinho/madrinha de um deles. E, às vezes, você deixa para chegar mais tarde em casa porque está rolando um imperdível campeonato de pebolim ou de Just Dance, na incrível área de convivência da empresa descolada e moderna onde você trabalha.

Afinal de contas, existe algo de errado nisso? Quer dizer, eu posso trabalhar em casa e posso manter contato com a minha família e os meus amigos quando estou no escritório. Isso não é incrível? Isso não é Inovação Social?

Sim, talvez isso seja incrível e talvez seja Inovação Social. E eu digo talvez porque depende. Do quê? Depende do motivo por trás disso. Talvez você realmente trabalhe em uma empresa muito legal, com líderes muito legais, que querem tornar sua experiência ali melhor do que ela costumava ser há 20 anos.

Talvez não.

Talvez você só trabalhe para pessoas que querem fazer com que você pense que tudo isso é muito incrível ao mesmo tempo que vive cada vez mais para aquela empresa e transforme cada vez mais o seu tempo em dinheiro. Não para você. Para “eles”.

Agora você pode ter lido isso pensando “Mas não é bem assim. Você está exagerando!” ou então “Bem-vinda ao Capitalismo! Qual é a novidade?” A novidade é que eu assisti a um filme no último fim de semana que me fez pensar nisso tudo. Me fez pensar em como, muitas vezes, a inovação criada para dar poder a alguém (uma pessoa, uma empresa ou até mesmo um governo) ou para controlar um determinado grupo pode vir disfarçada de Inovação Social. É isso o que o filme (inspirado no livro de mesmo nome) O Círculo, estrelado por Tom Hanks e Emma Watson, joga na nossa cara do começo ao fim.

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“Quando começa a trabalhar na empresa de tecnologia O Círculo, a jovem Mae realiza um sonho. Ela logo se torna uma de suas melhores funcionárias. Mas, quando sua vida passa a ser monitorada pela empresa e exposta ao público, Mae não imaginava o preço que isso traria para ela e todos ao seu redor.” – Sinopse de O Círculo, no Telecine Play.

O que começa parecendo o emprego dos sonhos, logo se mostra algo tão incrível assim. Rapidamente, a participação de Mae começa a ser cobrada em atividades dentro da “comunidade” do Círculo. Ela não só é analisada por seu trabalho, mas também pela convivência com os demais funcionários. E não falo isso considerando apenas aquela boa convivência normal a qual estamos acostumados (um bom dia aqui, um sorriso ali, uma piadinha leve, um almoço entre colegas e afins), mas sim da criação de uma espécie de vida pessoal acoplada à vida profissional, até o ponto em que Mae se muda para dentro da empresa, passando meses sem voltar para casa. E a “aventura” não para por aí. Se apenas essas informações te causaram estranhamento, aviso: esse não é nem o começo. E, por mais que muitas coisas apresentadas no filme pareçam absurdas em um primeiro momento, não é difícil de perceber que elas não são diferentes de muitas coisas que fazemos hoje.

Apesar de não ser um filme aclamado pela crítica (pelo contrário, ele atingiu apenas 16% de aprovação no Rotten Tomatoes e uma pontuação de 5,3/10 no IMDb), o que eu entendo e concordo que a produção como um todo tem muitos pontos a melhorar, acredito que o diálogo que ele levanta é algo muito importante.

O Círculo está disponível no Telecine Play e no YouTube Filmes (dublado e legendado, podendo ser alugado a partir de R$ 3,90); para saber mais e conferir o trailer, assista ao vídeo abaixo:

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