Como Big Little Lies me fez entender melhor questões acerca da violência doméstica

Quando decidi começar a assistir a Big Little Lies, minissérie da HBO baseada no romance homônimo de Liane Moriarty, não imaginava o que estava me esperando. Sabia o quão premiada a série era (com 8 estatuetas do Emmy – incluindo a de Melhor Série Limitada – e 3 Globos de Ouro, entre outras 19 premiações apenas na primeira temporada), mas preferi não ler qualquer crítica ou sinopse, me deixando surpreender com o enredo.

A série está apenas na primeira temporada e conta, em 7 episódios, a história um grupo de mulheres que parecem viver vidas normais na cidade Monterey (Califórnia), quando na verdade cada uma delas esconde pequenas grandes mentiras, que envolvem questões que vão desde traição até violência doméstica e abuso sexual. Tudo isso é contado ao mesmo tempo que o espectador se vê tentando desvendar um caso de assassinato, anunciado nos primeiros segundos da trama.

Eu, que esperava assistir a mais uma história dramática envolvendo donas de casa da alta sociedade, não imaginava era que, além de devorar a série em um final de semana, eu iria me surpreender não só com seu enredo, mas como a forma como vejo algumas questões com as quais milhares de mulheres ao redor do mundo precisam lidar diariamente, independente de sua cor ou classe social. A principal delas é a violência doméstica.

Caso você ainda não tenha reservado algumas horas do seu tempo livre para conhecer a história de Big Little Lies, recomendo que faça isso e volte depois para ler o restante desse texto. Além de levantar muitas questões importantes, a série também tem uma direção de fotografia incrível, uma trilha sonora que você não vai querer parar de ouvir e ainda conta com uma interpretação incrível de Nicole Kidman, no que – na minha opinião – é um de seus melhores papéis de sua carreira.

Agora, se você já assistiu a Big Little Lies (ou não se importa com uma pequena grande dose de spoilers), fica minha reflexão sobre a forma como essa série me fez mudar meu pensamento a respeito da violência doméstica.

Por mais que eu entenda muito bem como relacionamentos abusivos funcionam, ainda era difícil de entender como uma mulher conseguia se deixar estar em um relacionamento abusivo por meses e até mesmo anos. Então, eu, que felizmente nunca estive em uma situação parecida, me vi dentro do papel da personagem interpretada por Nicole Kidman.

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Na história, Celeste e Perry Wright são um casal de dar inveja a qualquer um: eles são lindos, moram em uma casa incrível, Perry (interpretado por Alexander Skarsgård) é um homem muito bem-sucedido, um pai amoroso e, aparentemente, um ótimo marido. Mas nem tudo é perfeito, muito pelo contrário: é muito pior.

Pelo olhar de Celeste, eu vivi todas as fases que um relacionamento abusivo pode ter, acontecendo aos poucos. Um dia, ele pede para que ela deixe de trabalhar para cuidar dos filhos; no outro, em uma explosão de raiva, ele aperta seu braço forte demais; no dia seguinte, o apertão se transforma em um tapa na cara, que se transforma em um empurrão, que se transforma em um soco e vai tomando proporções cada vez mais destruidoras. Obviamente, tudo contando com intervalos com choros sentidos, pedidos de desculpas desesperados e idas à terapia de casais.

E, assim como Celeste, eu demorei tempo demais para entender que Perry não iria melhorar.

Mas, caramba… É o Alexander Skarsgård. Ele é lindo, bem-sucedido, um ótimo pai e um marido muito carinhoso (quando não está agredindo sua esposa), ele pode melhorar…

Não. Ele não pode melhorar. Ele não vai melhorar. Quando percebi isso, a pequena grande mentira de Celeste havia se transformado em algo que estava prestes a acabar com sua vida.

Pelo olhar de Celeste, uma personagem fictícia, eu finalmente entendi algo que é real para muitas e muitas mulheres no mundo todo. Mulheres que eu nunca vou conhecer e mulheres que eu talvez até conheça, mas que guardam suas pequenas grandes mentiras a sete chaves.

“Quando você está atuando, você tem a chance de passar um mensagem importante. Nós trouxemos à tona o abuso doméstico. Essa é uma doença complicada e traiçoeira. Ela existe muito mais do que nos permitimos notar e é cercada de vergonha e segredo, e com vocês me reconhecendo com esse prêmio, traz o problema à tona ainda mais,” Nicole Kidman, em seu discurso ao receber o Emmy de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV.

Confira o trailer oficial de Big Little Lies no vídeo abaixo. Você pode assistir a todos os episódio da série no HBO GO.

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