Rota da Uva: A importância da agricultura familiar em Jundiaí e região

Nos últimos dias, embarcamos para Jundiaí, interior de São Paulo, para conhecer a Rota da Uva, circuito turístico e gastronômico que percorre os bairros do Caxambú, Colônia, Toca, Roseira e proximidades. No entanto, a Rota da Uva é muito mais que um circuito turístico, é uma aula de inovação social e no texto de hoje vou explicar os motivos desta afirmação.

Administrado pela associação homônima, a Rota da Uva visa muito mais do que só mostrar paisagens e delícias tradicionais produzidas pelos descendentes de italianos e portugueses. O percurso também visa valorizar a agricultura familiar e tradicional, que – com os anos – tem perdido espaço para loteamentos de luxo.

Atualmente, a agricultura familiar movimenta mais de US$ 55 bilhões no Brasil. De acordo com o Banco Mundial e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, quando somada a agricultura familiar, o país sobe de oitavo para quinto maior produtor de alimentos do mundo.

Voltado a Jundiaí, a Rota da Uva usa da tradição para mostrar a importância das famílias e da produção na região. É o caso da Fontebasso, produtora de vinhos coloniais há mais de 100 anos (e que está na sua terceira geração, além do atual patriarca Sr. Nivaldo “Nino” Fontebasso com 90 anos), e que ainda produz vinho com a uva Corbina, trazida pela imigração.

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Já a Vila Brunholi é um exemplo de expansão do pequeno agricultor. A história da família Brunholi se inicia em 1889, quando Antônio Brunholi deixou a Itália e instalou-se em Jundiaí. Aos poucos, o pedaço de terra adquirida pelo imigrante italiano deixou de servir somente à agricultura e passou a abrigar uma adega, passando pela primeira expansão dos negócios da família.

“Meu avô Antônio se dedicou a vitivinicultura desde que comprou o sítio, mas foi a partir dos anos de 1950 que os vinhos aqui produzidos começaram a ganhar fama na região”, comenta Paulo Brunholi, sócio do complexo turístico e presidente da Rota da Uva. “Já na época do Plano Collor, a agricultura sozinha não gerava mais uma renda satisfatória e assim nasceu a adega”.

A nova adega fez com que o Villa Brunholi se tornasse um ponto turístico da região, e a família resolveu ampliar ainda mais os negócios. “Criamos o restaurante, e isso foi agregando serviços,” diz Paulo. “Depois montamos o museu do vinho, visando resgatar um pouco de nossa cultura. A partir disso fomos criando novos produtos e atrativos para os turistas que frequentam o local, como nossa horta comunitária, mini fazenda e playground para as crianças”.

O ramo das bebidas, que começou somente com o crescimento do vinho no mercado, se diversificou e hoje o Villa Brunholi conta com uma cachaça premiada no Concurso Mundial de Bruxelas e uma Caipirinha que é exportada para o Reino Unido.

Mas engana-se quem acha que o “homem do campo” é peça essencial nas fazendas e adegas de Jundiaí. Na Rota da Uva o papel de liderança também está nas mãos das mulheres. Dois exemplos incríveis são a Beraldo di Cale e a Adega Português.

O primeiro, situado no sítio Roseira, é uma homenagem ao avô Beraldo, nascido na cidade de Cittaducale, região central da Itália. Atualmente a gestão e produção da adega e restaurante estão nas mãos de mãe e filha, Solange e Ariana Sgarioni, respectivamente, terceira e quarta geração na região. Solange Sgarioni conta que era bancária e funcionária do extinto Banespa, mas ao ser demitida, decide voltar para o campo. Já Ariana é enóloga e, junto com o marido, formado em engenharia de alimentos, Rafael Alex, atualmente cuidam da produção dos vinhos e das uvas.

Ariana e Rafael fazem parte de uma geração que tem crescido na região, daqueles que vão em busca da formação universitária, mas não deixam o campo. Pelo contrário, trazem o conhecimento acadêmico, de pesquisas e tecnológico para incrementar as produções e colocar Jundiaí cada vez mais no radar do turismo e da gastronomia.

Já a Adega Português é o “forasteiro” da região. Única família portuguesa na Rota da Uva, a adega foi fundada em 1972, com os portugueses José Coelho Capitão e Fernanda Maria Moniz, que trouxeram da Ilha da Madeira a esperança nas novas terras e a paixão pelo vinho. Cultivando a uva Niagara, principal tipo da região e presente em quase todas as propriedades da Rota da Uva, a Adega do Português junta a tradição com visões atuais.

A proprietária, Angela Coelho Moniz, é psicóloga com mestrado e doutorado em Patologia Experimental e Comparada pela Universidade de São Paulo, formação que reflete na produção agrícola da propriedade. Como? Os exemplos são diversos, mas dois deles se destacam: a ausência de agrotóxicos e a equipe composta só de mulheres.

A questão do agrotóxico é resultado das pesquisas feitas pela dra. Angela e que refletem na Angela produtora de uvas. O controle de praga da plantação é feita por roseiras, que, segundo a proprietária, são mais “apetitosas” para a praga e evitam que atinjam as uvas. Moniz também nos contou que, na Adega Português, não existe espaço para agrotóxicos, por isso, ela espera em breve produzir vinhos 100% orgânicos.

Seja na tradição centenária da Fontebasso e da Beraldo di Cale, na expansão da Vila Brunholi, na agricultura consciente da Adega Português ou nas tantas outras paradas da Rota da Uva, o percurso turístico nos mostra algo que vai além da gastronomia e do turismo, a importância gigantesca do pequeno produtor e como eles continuam transformando a nossa história.

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