Passado, presente e futuro: O povo indígena precisa de mais atenção

Para começar o texto de hoje, preciso voltar no tempo. Mais exatamente quase 518 anos atrás. Quando várias naus aportaram naquela terra desconhecida, mas que logo ganhou o nome de Terra de Vera Cruz. Nas palavras de um fidalgo português que, por ora, havia adotado a função de escrivão da armada, fez-se uma carta ao rei:

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro. (…) Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram.

O ato de abaixar o arco muito representa, mesmo que simbolicamente, a situação indígena no Brasil desde sempre. Na verdade, este detalhe mudou a história e mostra muito sobre um povo que pouco sabemos. Ao contrário de Hernán Cortez, o conquistador espanhol que dizimou o Império Asteca (e deve ganhar uma série produzida por Steven Spielberg e estrelada por Javier Bardem em breve), Cabral deu sorte e encontrou um povo muito mais hospitaleiro naquele dia.

Talvez se Nicolau Coelho tivesse ganho uma flecha no pescoço, a história fosse diferente – provavelmente muito mais sanguinária. Mas “tudo bem”, o que os português não fizeram com os seus anfitriões naquele dia, nós vemos acontecer aos montes mais de quinhentos anos depois. Entre o fim de 2015 e começo de 2016, dois crimes brutais contra indígenas chamaram a atenção dos noticiários policiais. Em Belo Horizonte, um índio foi espancado enquanto dormia na calçada. Já em Santa Catarina, um bebê foi degolado nos braços da mãe. Apesar do nome cristão, Vitor, o meu pequeno xará era um curumim da etnia Kaingang. E, apesar de chocantes, esses não são casos isolados, é o que mostra o relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil”.

A diferença é que os indígenas de hoje já não são tão ingênuos quantos os do tempo de Cabral e apelam por seus direitos, mas, mesmo assim, o ignoramos e/ou queremos tratá-los como representações reais de um Papa-Capim qualquer, principalmente quando o assunto são as suas terras. De acordo com o relatório citado acima, “as demarcações de terras (indígenas), caracterizadas como direitos fundamentais e sobre os quais estão alicerçados os demais direitos, continuam paralisadas, em função da pressão dos ruralistas.”

Neste ponto vale ressaltarmos uma questão política. Atualmente a bancada ruralista é composta de 222 deputados, ou seja, um terço da Câmara dos Deputados. É por pressão deste grupo que, em julho de 2017, o presidente Temer assinou um parecer sobre os processos de demarcação de terras indígenas, onde passada a considerar terra indígena apenas as áreas ocupadas até a data da promulgação da Constituição Federal, ou seja, outubro de 1988.

Mas, afinal, qual a necessidade da demarcação de terras indígenas?

A sua terra natal foi devastada, alguns nem falam o português tão corretamente. Suas tradições e, até mesmo, a sua feição é diferente de algumas pessoas que passam por você na rua. Eu poderia estar falando de qualquer refugiado sírio ou venezuelano, mas – infelizmente – ainda estamos falando dos índios brasileiros.

A demarcação de terra vai muito além do “encher barriga”, como disse, na época ministro da Justiça, Osmar Serraglio. A questão está atrelada ao reconhecimento de uma identidade, de uma cultura. Só no Brasil, são mais de 800 mil pessoas divididas em 305 etnias indígenas. E, oras, se você pode buscar a sua cidadania europeia, porque devemos impedir que estas pessoas tenham a sua identidade indígena? Por que o índio precisa ser uma pessoa isolada e desconectada? O vídeo (abaixo) do Instituto Socioambiental fala um pouco destes estereótipos e faz parte da campanha #MenosPreconceitoMaisÍndio.

Talvez por uma mistura étnica bem acentuada, acabamos ignorando nossos ancestrais 100% brasileiros. E, tirando aquelas famílias que sofreram uma migração mais recente (1ª e 2ª Guerra), muitos de nós temos uma pouco de sangue indígena. Talvez não o suficiente para fazer parte de uma etnia específica, mas para, no mínimo, saber que devemos respeitá-los.

E, ao contrário do acontece em outros países, me parece que somos ávidos por culturas externas, mas preferimos ignorar (ou achar chato) quando a discussão é mais local. Se você faz parte deste grupo, não precisa se sentir julgado, mas sugiro que vá conhecer o game “Never Alone (Kisima Inŋitchuŋa)”. Mesmo que não jogue, vá conhecer um pouco mais do game. Criado em parceria com os nativos do Alasca, ele mergulha nos saberes tradicionais do povo Iñupiaq, do Ártico. A ideia do jogo é fazer com que, por meio de uma nova mídia, não seja perdido a cultura regional de um povo que, devido a modernização, passou a esquecer suas origens.

Para encerrar o texto de hoje, deixo dois pontos finais. O primeiro é uma dica de quem estuda tendências. Para prevermos o futuro, nós precisamos entender o passado. E hoje, você só é quem é, por causa de uma história ancestral. O segundo ponto é uma pergunta que fica no ar: Será que teremos que extinguir nossos povos indígenas, para, aí sim, começar a nos preocupar com “de onde viemos e para onde vamos”?

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