Eleições 2018: O plano URSAL – A vitória das fake news

Tudo começou na noite da última quinta-feira (9), durante o primeiro debate dos candidatos à presidência. O cabo Daciolo, candidato pelo Patriota, deveria fazer uma pergunta para Ciro Gomes, do PDT. O tema era livre. Poderia ser uma pergunta sobre economia, educação ou saúde, mas Daciolo decidiu lançar a “bomba” e, desenterrada das entranhas das notícias falsas, disparou a seguinte pergunta: “(…) o que o senhor pode falar aqui, para a população brasileira, para a nação brasileira, sobre o plano URSAL?”.

Como visto no vídeo, Ciro Gomes praticamente ignorou a pergunta e seguiu em frente. Entretanto, o “urso comunista” já tinha sido solto da sua jaula de memes. Ciro pode ter ignorado, mas a internet brasileira não. Em poucos minutos era bandeira da URSAL, hino oficial e mais uma imensidão de piadas irônicas sendo publicadas nas redes sociais. Confesso que, no primeiro momento, até eu entrei na brincadeira, mas passado o instante de ceticismo (a frase que mais pairava na minha cabeça – e de outros tantos brasileiros – era “não, não… ele não falou isso”). Mas falou! Falou e expôs o perigo das fake news.

Antes de explicar a relação da pergunta do debate com as fake news, vamos entender o que realmente é a URSAL. Em declaração para a Folha de S. Paulo, a socióloga Maria Lucia Victor Barbosa explicou como e porquê cunhou o termo, ainda em 2001, em um texto sobre o Foro de São Paulo.

Na ocasião, ironizando um discurso do então presidente Lula, que criticava a Alca no encontro, a socióloga escreveu: “Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (URSAL)?”. Veja que, ao contrário do atual candidato a presidência, a professora usou o termo “republiquetas”, evidenciando a ironia. Não foi o suficiente.

Eis que chegamos nas fake news. Apesar do tom jocoso de muitos, algumas pessoas ainda não perceberam que a URSAL é um termo irônico. Pelo contrário, montam teorias conspiratórias por trás da sigla e espalham o medo e incertezas. Ironicamente, três dias antes do debate, as redes sociais viram os canais do escritor americano Alex Jones, o Infowars, serem deletados do Facebook, Spotify, Apple e YouTube por “violar as diretrizes de comunidade” e “espalhar discurso de ódio”.

Veja bem, meu caro leitor e leitora, o conteúdo produzido pelo americano não está muito longe da URSAL. Jones espalhava teorias conspiratórias em seus canais e podcasts, como, por exemplo, o envolvimento do governo americano no 11 de setembro ou no tiroteio na escola de Sandy Hook, em Connecticut. Transformava tragédia em lenha para um debate político extremista.

A grande diferença entre as duas teorias está na mídia onde elas foram veiculadas. Enquanto Alex Jones usava as redes sociais e sites próprios para espalhar seu ponto de vista, a URSAL foi divulgada em um debate político em canal aberto. Para “ajudar”, nós decidimos potencializar a teoria conspiratória com memes, vídeos e, até mesmo, eventos no Facebook (muita gente criou “encontros da URSAL”).

Longe de ser politicamente correto, levanto a bola para uma discussão. Será que, ao fazer chacota dos extremistas, não estamos alimentando o monstro? Não estamos ajudando o lado errado a espalhar desinformação, medo e paranóia?

Acha que estou sendo dramático? Então veja o gráfico de buscas dos termos “URSAL” e “Cabo Daciolo” nos últimos 7 dias, segundo o Google. O pico de buscas acontece no momento do debate (veja aqui o relatório completo).

O plano URSAL: A vitória da fake news

Segundo o Google, “os números representam o interesse de pesquisa relativo ao ponto mais alto no gráfico de uma determinada região em um dado período. Um valor de 100 representa o pico de popularidade de um termo. Um valor de 50 significa que o termo teve metade da popularidade. Uma pontuação de 0 significa que não havia dados suficientes sobre o termo.” ou seja, antes da declaração, tanto a teoria, quanto o candidato não eram relevantes para o sistema de busca.

Ainda de acordo com o Google, no dia 09 de agosto, o termo “URSAL” foi o mais buscado no Brasil, com consultas relacionadas para “Cabo Daciolo”, “URSAL 2018” e outras variações do nome do candidato (assustador, visto que a pergunta foi feita já nas últimas horas daquele dia). No dia 10, a busca por “o que é URSAL” e “plano URSAL” somaram mais de 70 mil buscas e seguiram nos 20 termos mais buscados no Brasil.

Pode parecer besteira, mas ainda tem muita gente que acredita e interpreta a ironia ao pé da letra. Por isso, deixo aqui um alerta, a URSAL (e tantas outras teorias conspiratórias) parece uma maluquice para alguns de nós, mas não vamos ignorar que existem pessoas que acreditam e, ao invés de informar, as piadas funcionam como fake news, gerando mais desinformação.

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