ODS nº02: O antes, o agora e o depois na luta contra a fome

Neste texto vamos falar sobre o ODS nº 02 – Fome Zero e Agricultura Sustentável. De acordo com Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), “o rápido crescimento econômico e o aumento da produção agrícola nas últimas duas décadas fizeram com que o número de pessoas em má-nutrição caísse quase pela metade. Infelizmente, fome extrema e má-nutrição continuam sendo uma grande barreira para o desenvolvimento em muitos países. 759 milhões de pessoas possuem má-nutrição crônica (2014), uma consequência direta da degradação ambiental, secas e perda da biodiversidade. Além disso, mais de 90 milhões de crianças com menos de cinco anos de idade estão seriamente abaixo do peso e uma a cada quatro pessoas sofre com a fome na África.”

Já de acordo com a plataforma Agenda 2030 (do PNUD), “para alcançar este objetivo, é necessário promover práticas agrícolas sustentáveis, por meio do apoio à agricultura familiar, do acesso equitativo à terra, à tecnologia e ao mercado.”

Você pode conferir as metas do objetivo nº02 neste link.

Como vimos nas palavras do PNUD, a erradicação da fome vai muito além do simplesmente “comer” e é por isso que temos a agricultura sustentável como uma das necessidades contempladas no objetivo #02. A produção e o desperdício são dois pontos muito importantes no ciclo da alimentação e impactam diretamente o sistema. Por isso, hoje o InovaSocial decidiu abordar o tema dividindo ele em três momentos: o antes, o durante e o depois.

O Antes: A recuperação da biodiversidade e a convivência sustentável com a natureza

Quando milhares de refugiados começaram a chegar no vilarejo de Minawao, em Camarões, fugindo das atrocidades do grupo extremista Boko Haram, a região era cercada por mata nativa. Com o assentamento de mais de 60 mil pessoas na região, grande parte desta floresta foi – literalmente – reduzida a pó. Acredita-se que, por ano, uma pessoa consome cerca de 1 hectare de floresta que é transformada em lenha para cozinhar.

Com a ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR) e a startup holandesa Land Life Company, agora os refugiados daquela região estão começando a recuperar a floresta e, também, transformando resíduos agrícolas em briquetes ecológicos, que substituem a lenha dos fogões de argila.

Enquanto a ACNUR coordena a fábrica de briquetes ecológicos, a Land Life fornece o Cocoon (“casulo” em português), um inovador sistema de plantio de mudas feito a partir de papel biodegradável. De acordo com Charlotte Jongejan¹, head de marketing e comunicação da startup holandesa, “o Cocoon possui um reservatório (de água) e um tampão, o que permite que a muda sobreviva durante o período de estiagem, que dura de três a seis meses.” Além disso, cada conjunto de 30 mil árvores fornece emprego para mais de 250 pessoas no campo e, muitas delas, fornecem alimentos, que vão de nozes à folhas para chá.

Abaixo você confere o mini documentário “It Will Be Green Again”, também produzido pela Land Life, que detalha o processo, o atual cenário e o ecossistema do campo de refugiados.

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O Durante: As imagens da fome vão além da fotografia da vítima magra

Normalmente, quando falamos de fome e continente africano, a primeira imagem que nos vem à mente é, a fotografia estereotipada, normalmente de uma criança, vítima da fome e com os ossos em evidência. O fotógrafo holandês Chris de Bode, encontrou uma outra forma de representar a fome. No projeto One Meal a Day (“Uma refeição por dia”, em português), De Bode mostra as refeições de refugiados e outras vítimas da fome.

Entre os registros, estão o peixe – quase sem carne – que chega a custar R$ 1.30 e é usado apenas para temperar alimentos básicos, como milho, e o super cereal, um líquido leitoso usado como alimento suplementar de emergência, produzido à base de milho, trigo e arroz, o composto ainda é fortificado com vitaminas e minerais, além de leite em pó, açúcar e óleo.

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Já a pasta milho vermelho moído e molho de folhas de manga é a única refeição de Palta Ali, refugiada de 30 anos, e de seus dois filhos mais novos, Fatomada, de 10 anos, e Boucar, de 4. Para o fotógrafo holandês, Palta explica que não tem comida o suficiente para os outros dois filhos adolescentes, Ali, de 15 anos, e Modou, de 12. Acredita-se que, só na região do Lago Chade, exista mais de 500 mil crianças sofrendo com desnutrição severa aguda.

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O Depois: O desperdício de comida nas grandes cidades

Enquanto, de um lado, temos a fome extrema, do outro, há o desperdício. Uma das novas tendências para os departamentos de saneamento do mundo todo é a redução de desperdício de alimentos. Nenhum outro departamento de uma grande cidade está mais familiarizado com o problema do desperdício, do que o de saneamento, afinal, são eles os responsáveis por “dar fim ao lixo”.

O Departamento de Saneamento de Nova York (DSNY) decidiu adotar uma abordagem diferente e, ao invés de só recolher o “lixo”, decidiu atacar a produção de resíduos alimentares com linhas de microcréditos. A partir de um fundo de 50 mil dólares, arrecadado pela fundação For New York’s Strongest, durante a abertura do NYC Food Waste Fair, serão destinados incentivos que variam de US$ 2 mil (para empresas individuais) a US$ 5 mil (para grupos de empresas locais) que decidirem enfrentar o desperdício.

Alguns projetos são relativamente simples, como o Trans Am Café, no Brooklyn, que pretende usar o dinheiro para instalar um sistema de compostagem de três compartimentos. Já outros são mais complexos e vão além do dinheiro, pois necessitam de inteligência e dados. Um exemplo é a The White Moustache, empresa familiar especializada em iogurtes, que procurava lugares na cidade que tivessem suprimento de frutas com prazo de validade limitado e pudessem serem usados em seu processo de produção.

De acordo com Elizabeth Balkan, diretora de políticas da DSNY, em entrevista para a revista Fast Company², afirmou que “conseguimos conectá-los com mais de uma dúzia de atacadistas que lhes deram uma lista de todos os excedentes de frutas que têm, a época em que o têm e a disponibilidade estimada em termos de volume.” Agora usadas em uma série de iogurtes congelados coloridos (algo como um geladinho/sacolé probiótico), as frutas coletadas neste sistema “tornaram-se uma crítica plataforma B2B para o negócio da The White Moustache”, afirma Balkan.

Além de Nova York, a cidade de Los Angeles também financiou projetos de redução de desperdício de alimentos com um subsídio de US$ 100 mil, oriundo do Departamento de Obras Públicas, e os vencedores do “Food Waste Grant Challenge” foram anunciados em fevereiro de 2018 (confira a lista aqui).

¹Texto originalmente publicado em At This Refugee Camp, Residents Are Replanting 40,000 Trees
²Texto originalmente publicado em These Food Waste Innovations Show The Big Impact Of Small Changes

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