Como a inovação deveria ser pensada para as pessoas

A edição do The BRIEF da última última segunda (24), lembrou uma parte da lenda original dos vampiros que encaixa como uma luva no nosso texto de hoje. Diz a lenda (e as séries televisivas), que um vampiro só pode entrar em uma casa depois de ser convidado pelo anfitrião. Uma vez convidado, o monstro mitológico pode invadir a residência sempre que quiser. Na lenda milenar, o “morcegão” entra nas residências para sugar o sangue das pessoas. Na analogia sobre a atualidade, a permissão vem em forma de contrato e o objetivo final não é o nosso sangue, mas os nossos dados.

Sei que essa analogia soou um pouco catastrófica. Até parece que foi escrita por alguém que é contra as novas tecnologias, um Amish talvez. Muito pelo contrário, meu caro leitor, eu sou uma das pessoas que mais assina contratos com “vampiros” high techs. Não posso ver um “beta” escrito, que já estou lá me inscrevendo no serviço, aplicativo ou rede social. Sou o que o marketing chama de early adopter e, algumas vezes, estou até antes disso.

Mas afinal, qual o objetivo do texto de hoje? É resumir algo que estamos falando durante todo o mês de setembro: Nem toda inovação é social.

E aqui vale um parênteses importante. Algo que falamos constantemente, mas que vale reforçar sempre. Quando falamos do “social”, não estamos falando do terceiro setor e/ou da filantropia. Estamos falando da essência da palavra. Ou seja, nas palavras do dicionário Michaelis, é algo relativo às pessoas ou à sociedade.

Voltando para a inovação. Isso não é algo novo. Desde que inventamos a roda e/ou o fogo, o ser humano começou a inovar. Mais do que isso, a inovação tem como objetivo as pessoas (ou deveria), afinal, são elas que vão usar o novo. Mas com o boom da era digital, parece que o humano inventor esqueceu do principal… o outro humano. Não importa o quão genial é o seu aplicativo, a sua solução ou o seu método, se ela não for consumida por outro humano. Ou, voltando a nossa analogia do vampiro, o humano inventor, na era digital, vê o outro humano como um número, e não como uma pessoa.

E aqui chegamos ao primeiro grande questionamento deste texto: Por que a inovação precisa ser dividida em impacto social? Será que aquele aplicativo de rede social não gera um impacto social? Será que a sua ideia, por menor que seja, não gera impacto social? Já passou da hora de pararmos de dividir em algo que gera impacto social e algo que não gera impacto social. Como o conceito de inovação é algo intangível, vamos aos exemplos, para nos ajudar a ilustrar.

Em abril deste ano, a Linha 4 – Amarela, do metrô de São Paulo, anunciou que algumas estações teriam telas (para exibir anúncios) que conseguem reconhecer expressões faciais e identificar como os passageiros reagem a determinado anúncio. Algo inofensivo, correto?

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Não aos olhos do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Que, no fim de agosto, iniciou uma ação civil pública (ACP) contra a ViaQuatro, concessionária responsável pela linha 4-Amarela do metrô de São Paulo, para impedir a coleta ilegal de dados nas “portas interativas digitais”. De acordo com o advogado e pesquisador em direitos digitais do Idec Rafael Zanatta a prática gera grandes preocupações, já que não solicita nenhum tipo de autorização dos participantes. “O caso é de magnitude impressionante. Os sensores são instalados nas portas de acesso ao trem, de modo que o usuário não tem direito de escolha: ou aceita a coleta dos seus dados, ou busca outro modo de se locomover na cidade, o que configura prática abusiva já que o transporte público se trata de um serviço essencial. É uma pesquisa de opinião forçada que viola a Constituição e várias leis federais”, explica.

Em defesa, a AdMobilize, responsável pelo projeto, afirmou que os dados das câmeras não são armazenados, por isso não seria preciso informar os passageiros. Antes de entrarmos na questão legal, queria apenas adicionar um comentário a defesa e pertinente a nossa discussão. Quer dizer que se a lei não prevê, eu não preciso avisar que estou usando os dados de um pessoa para benefício próprio? Lembrou também “O Círculo”, sugestão de filme que indicamos na última quinta (20), onde a filosofia do “quem não deve nada, não precisa ter medo de ser identificado”.

Mas voltado ao cenário legal. No dia 14 de agosto, o presidente Temer sancionou a “Lei de Proteção de Dados Pessoais” (Lei nº 13.709, de 14.8.2018). Baseada no Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), da União Europeia, a lei brasileira classifica no art. 5º, inciso II, dado pessoal sensível como “dado pessoal sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou a organização de caráter religioso, filosófico ou político, dado referente à saúde ou à vida sexual, dado genético ou biométrico, quando vinculado a uma pessoa natural”, ou seja, segundo a lei, não seria permitido o processamento de dados sensíveis pelas câmeras do metrô. Seria, porque a lei 13.709 só entra em vigor em 2020.

Alguns dirão que a lei é retrógrada, outros dirão que a lei nos protege. Eu diria que, para seguir a lei, bastava pensar a inovação sob uma ótica social e adicionar uma pitada de empatia. Mas como isso seria possível? A fundadora da Be The Change, Davida Ginter, em seu artigo “Innovation Is Empty. Here’s Why” cita um guia rápido para empreendedores impulsionados por impacto social, mas que pode ser indicado para qualquer pessoa que queira inovar. Abaixo você confere os 10 passos e alguns comentários:

#01 – Defina a necessidade e/ou problema. Seja o mais preciso possível. Assim como qualquer projeto, você não deve começar pelo fim, mas pelo problema que quer solucionar;

#02 – Levante da mesa e vá ao seu público para uma “verificação de realidade”. Esse é um dos maiores conselhos, mas que pouca gente segue. Não adianta projetar algo em ambientes controlados. Vá para a rua. Conheça a sua realidade;

#03 – Faça um brainstorm para ideias e soluções. Sim! Gaste um tempo com brainstorm e ideias “malucas”;

#04 – Defina sobre a estrutura que irá orientá-lo, com princípios sustentáveis, objetivos e limites. É neste ponto que entra a perspectiva de sistema, evitando que se crie mais problemas ao tentar soluçar algo;

#05 – Crie um conjunto de perguntas, bem como um conjunto de critérios, que protejam a sua inovação de seguir direções erradas (mesmo que no futuro);

#06 – Levante-se novamente, fale com pessoas reais novamente e verifique se a sua ideia tem o potencial de resolver o problema ou as suas necessidades;

#07 – Repita adequadamente. Um bom jeito para validar a ideia;

#08 – Projete, desenvolva e crie um protótipo. Agora sim, você pode colocar a mão na massa;

#09 – Ajuste de acordo com o feedback do item 8;

#10 – Ganhe escala!

#11 – Passo bônus: Nunca esqueça… No fim do dia, inovação social é sobre pessoas e como elas se comunicam e interagem entre si. Não seja um vampiro.

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