Desacelerar também é inovação

Cada pessoa pode ter uma visão diferente do que é a inovação. Mas uma coisa com a qual precisamos concordar é que ela não existe sem a peça essencial desse quebra-cabeça: o ser humano. Seja visando o impacto social ou não, a inovação ainda precisa dos humanos para ser desenvolvida e aperfeiçoada. Mas o que acontece quando os humanos estão exaustos?

Há quem acredite que a inovação seja é um smartphone novo, uma impressora 3D, um jogo em realidade virtual. Para mim, a inovação é uma forma de pensar. O smartphone novo, a impressora 3D e o jogo em realidade virtual – entre inúmeras outras coisas – são “apenas” o resultado de onde uma mente inovadora pode chegar quando tem em mãos as ferramentas certas.

A inovação é o futuro, sem dúvidas. Mas é preciso lembrar que por mais que as mentes inovadoras também vivam no futuro, os corpos que abrigam essas mentes vivem no presente. E, mais do que nunca, esses corpos e essas mentes precisam de descanso.

Desde o final dos anos 1970, o Japão, um dos países mais inovadores do mundo, tem uma palavra para se referir às pessoas que morrem por passar muito tempo no escritório: karoshi. A tradução literal é “morte por excesso de trabalho”.

Em 2017, o governo reconheceu terem ocorrido 236 karoshis, e 208 suicídios foram oficialmente considerados karojisatsus – suicídio provocado por condições estressantes de trabalho.

Em julho de 2013, Miwa Sado foi encontrada morta em seu apartamento em Tóquio, segurando seu celular. Sado, repórter da emissora japonesa NHK, morreu de insuficiência cardíaca congestiva – o que significa que seu coração ficou tão fraco que não conseguiu bombear sangue suficiente para seu corpo. Ela tinha 31 anos. Naquele mês, Sado havia feito 209 horas extras. E, no mês anterior, 146 horas extras. Apenas em outubro de 2017, a morte de Sado foi oficialmente designada como karoshi.

209 horas extras em um mês. São quase 7 horas extras por dia.

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Peça da série fotográfica “Let The Poets Cry Themselves To Sleep”, produzida em Tóquio, pelo britânico Adrian Storey.

Inovação também é desacelerar.

Em fevereiro de 2017, o governo japonês criou a campanha “Premium Friday”, que incentivava empresas a liberarem os funcionários às 15h na última sexta-feira do mês, dia em que muitos trabalhadores recebem seus salários, para que as pessoas usassem o dinheiro para viajar e fazer compras.

O projeto encontrou resistência, já que é comum que as empresas estejam sob grande pressão ao final do mês. Um estudo realizado este ano pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria mostrou que, embora quase 89% dos funcionários estivessem cientes da campanha, apenas 11,2% deles deixaram o trabalho mais cedo na Premium Friday de cada mês.

Agora, o governo Japonês está criando uma nova campanha, que dessa vez quer incentivar os funcionários a adiarem o início da semana, tirando folga nas manhãs de segunda-feira.

A “Shining Monday” é uma iniciativa do Ministério da Economia, criada com o objetivo de melhorar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A campanha faz parte do plano do governo japonês para incentivar as empresas a reduzir as horas extras dos funcionários e tirá-los do escritório mais cedo – enquanto, ao mesmo tempo, enfrenta o persistente problema que é o karoshi.

De acordo com a proposta, que provavelmente será mais agradável para as empresas e popular entre os trabalhadores que querem se dedicar mais vigorosamente à noite de domingo, as empresas vão uma vez por mês deixar que os funcionários descansem um pouco mais no primeiro dia de trabalho da semana, e apareçam no escritório apenas após o almoço.

No final de julho, o Ministério da Economia realizou um teste do plano, liberando 30% de sua equipe durante a manhã do dia 27. Segundo o Ministério, a iniciativa foi um sucesso e agora a ideia é expandir isso para o mundo corporativo.

É importante lembrar que aderir à “Premium Friday” ou à “Shining Monday” não é algo obrigatório para as empresas. Pensando nisso, ficam as questões: o que fazer quando seu mercado está matando sua população? Onde fica a inovação quando não houver ninguém para criar algo novo ou simplesmente apertar um botão?

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Peça da série fotográfica “Let The Poets Cry Themselves To Sleep”, produzida em Tóquio, pelo britânico Adrian Storey.

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