As crianças no YouTube: Publicidade infantil, supervisão dos pais e banheiras de Nutella

O que o seu filho (realmente) assiste no YouTube? Talvez você não saiba responder esta pergunta com 100% de certeza, mas não precisa se sentir culpado, afinal, ao contrário do que era a televisão nas décadas passadas, que centralizava o entretenimento audiovisual da casa e dificultava o consumo de vídeos longe dos olhos parentais, o conteúdo digital está em todo lugares. As crianças consomem vídeos na televisão da sala, mas, também, no celular, no tablet e no computador.

Se por um lado, a disseminação de conteúdo é um dos grandes trunfos da era digital, por outro, deixou os pais com um grande problema nas mãos. Talvez você até tropece naquele discurso saudosista de “na minha época isso não existia”, mas isso não é bem verdade. Se hoje temos youtubers, no passado tínhamos Xuxa em trajes mínimos e outras tantas peculiaridades do passado. Quem não lembra das piadas racistas dos Trapalhões?

O grande detalhe de tudo isso, como falei no primeiro parágrafo, é que nossos pais simplesmente falavam “agora você vai desligar a televisão” ou “televisão só até as 20h.” Isso, muitas vezes, evitava que as crianças assistissem a uma cena mais caliente ou violenta. Mas como controlar uma coisa que está, praticamente, em todos os lugares? A resposta é… Controlar não é a solução. A palavra da vez é supervisionar.

Sabe aquele “trunfo” de dar o tablet na mão dos pequeninos e falar “agora fica aí quietinho(a) assistindo ao desenho”? Sem supervisão, a criança pode parar em um link com pornografia explícita e você não pode nem reclamar (muito menos brigar com a criança).

Só que a supervisão não serve apenas para evitar cliques em sites indesejados, existem fatores que (e aqui vale uma reflexão importante) expõem as crianças de outras formas. Uma delas é a publicidade infantil “velada”. Neste ponto, convido você para deixar os gostos pessoais e posição política de lado, e assistir ao vídeo do Gregório Duvivier sobre a publicidade infantil. Este episódio do Greg News, da HBO, é um belo resumo do atual cenário da publicidade digital.

Talvez você não conheça o Felipe Neto (citado no vídeo acima), mas ele e o irmão acumulam atualmente mais de 500 milhões de visualizações por mês. É, segundo o próprio youtuber, a maior audiência do Brasil. Por ser o maior e um dos mais polêmicos, Felipe é constantemente transformado em um Judas do Sábado de Aleluia.

Sobre as acusações e críticas que a imprensa tradicional tem feito em relação ao seu conteúdo, o Felipe Neto publicou na última terça-feira (24), um vídeo intitulado “Resposta de Felipe Neto à imprensa”. Como nós acreditamos que os dois lados sempre precisam ser ouvidos, segue o vídeo para que você tire as próprias conclusões.

A imprensa realmente parece adorar malhar a imagem do youtuber, mas o grande problema é que ele não está sozinho. Em 2016, o Instituto Alana entrou com uma denúncia no Ministério Público Federal do Rio de Janeiro contra 15 empresas (Biotropic, C&A, Cartoon Network, Foroni, Kidzania, Long Jump, Mattel, McDonald’s, Pampili, Puket, Ri Happy, SBT, Sestini e Tilibra), todas por publicidade velada dirigida ao público infantil. Na época, todas negaram ou se esquivaram de respostas quando questionadas pela BBC Brasil. No mesmo ano, o canal britânico fez também uma matéria sobre a febre do unboxing, que indico a leitura para quem quiser se aprofundar na discussão.

No entanto, a discussão já é uma velha conhecida. Também em 2016, o STJ tomou uma decisão acerca de um caso de 2007, de acordo com o Instituto Alana.

Art. 2º – Considera-se abusiva, em razão da política nacional de atendimento da criança e do adolescente, a prática do direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço – Resolução CONANDA, nº 163 de 13/03/2014

A grande questão é que regulamentar isso tudo é uma batalha hercúlea. Mesmo com a resolução do CONANDA, o volume de vídeos inviabiliza a fiscalização. Só como exemplo, no YouTube, o resultado de busca pelo termo “Peppa Pig” (desenho animado destinado ao público infantil em faixa etária pré-escolar) possui 10.200.000 vídeos. Só conseguiríamos controlar isso tudo com duras regras e, não há chances – e nem devemos querer -, que o Estado nos diga como devemos educar as nossas crianças, por isso a palavra que usei foi supervisionar.

Pai e mãe, a tarefa de educar não está (só) nas mãos dos professores. Ser presente e conversar com a criança é, e sempre será, a melhor solução. Isso me faz lembrar dos anos em que era responsável pelos meios digitais de um canal infantil e recebi um emblemático e-mail que dizia: “Meu filho viu seu personagem pulando na cama, pulou na minha cama e bateu a cabeça.” Mesmo com toda a supervisão que tínhamos com o conteúdo, algo ingênuo passou pelos filtros (só como exemplo, o canal tinha como uma das regras, nunca mostrar personagem em conflito ou em lutas corporais, mesmo que leve). No final das contas, prevaleceu a máxima “macaquinho vê, macaquinho faz” e a criança foi pular na cama dos pais. Agora fica a pergunta, será mesmo que a culpa era do desenho animado? Será que o distúrbio alimentar de uma criança pode ser influenciado por um youtuber?

A verdade é que sempre existirão Felipes no conteúdo (seja ele digital, ou analógico). A publicidade sempre achará formas de vender o seu produto. Só nos resta supervisionar as crianças e entender que tipo de conteúdo eles estão consumindo, do contrário, será uma luta sem fim e os únicos prejudicados são os pimpolhos.

Observação: Enquanto finalizava este texto, fui recuperar um vídeo no canal do Felipe Neto e, para a minha surpresa, fui impactado por uma propaganda de bebida alcoólica (veja no print abaixo). Se o canal do youtuber possui grande público infantil, porque fui recebido com uma publicidade para +18? Entendo que o Youtube usa dados da minha navegação para apresentar publicidade, mas não seria o caso de vetar este tipo de publicidade? A responsabilidade recai no colo de quem: youtuber ou YouTube? E as crianças que usam a conta dos pais para assistir aos vídeos no YouTube? Fica no ar mais uma reflexão.

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